Reportagem: O Futebol é para todos?
A luta contra a LGBTfobia no esporte avança com representatividade e mobilização, mas ainda esbarra em uma cultura de preconceito dentro e fora dos campos

A homofobia e a transfobia são problemas que atravessam gerações, e vem sendo cada vez mais presente no esporte. No futebol, dentro ou fora de campo, a sexualidade sempre foi utilizada como parâmetro para a forma como as pessoas são enxergadas. O esporte se tornou um ambiente de insegurança e proliferação do ódio a pessoas LGBTQIAPN+. Diante disso, fica o questionamento: O Futebol é realmente para todos? “O futebol é um lugar de reprodução da masculinidade tradicional.”, afirma Vanrochris Vieira, jornalista, doutor em Ciências Humanas pela UFSC e pós-doutorando no Programa de Gênero e Masculinidades no Futebol.
Em 2026, mais de 1,2 mil atletas disputam a Copa do Mundo masculina de futebol. Todos eles, aos olhos do público, são heterossexuais. Mas será que isso é verdade, ou medo da repressão esconde um sentimento por trás? Em 96 anos da competição, apenas dois atletas assumiram a homossexualidade. O ponta-direita da seleção francesa, Olivier Rouyer, e o meio campista alemão, Thomas Hitzlsperger. “Se o jogador faz isso enquanto está jogando, ele sofre retaliações. Quando já está aposentado, existe uma tranquilidade maior.”, diz o pesquisador Vanrochris.
Em entrevista à BBC, Hitzlsperger falou sobre a decisão de se assumir apenas ao encerrar sua carreira. “Fui alertado sobre ter que lidar com essa parte pessoal e o meu profissional. Estavam certos! Acho que não conseguiria”, afirmou.
Jogadores que se assumiram LGBTQIAPN+ e se tornaram símbolo do combate ao preconceito no esporte
RICHARLYSON

A escolha de relevar a sexualidade após largar o gramado, também aconteceu com o lateral-esquerdo Richarlyson. Aos 43 anos, o jogador de carreira vitoriosa atua como comentarista na Rede Globo. Richarlyson viu os holofotes virarem para o assunto em junho de 2007, quando o diretor administrativo do Palmeiras, José Cyrillo Júnior, insinuou que o atleta seria gay.
Questionado pelo jornalista Milton Neves se um atleta que assumiria a sexualidade seria do time alviverde, Cyrillo deixou escapar a seguinte frase: “O Richarlyson quase foi do Palmeiras…”. O episódio chegou a render risadas entre os presentes no programa de TV.
Segundo o jornal “O Globo”, o caso seguiu adiante com uma queixa-crime do Richarlyson, mas foi arquivado pelo juiz Maximiano Junqueira Filho, afirmando que o jogador deveria voltar ao programa para rebater o dirigente, e que caso fosse gay, deveria abandonar os gramados. “Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”, completou.
Quase 15 anos depois, Richarlyson veio a público falar abertamente sobre seus sentimentos. “Cara, sou normal. Tenho vontades e desejos. Gosto de homem e de mulher! Vão ter várias matérias falando sobre isso, mas a pauta homofobia é a mais importante”, declarou ao podcast “Nos armários dos vestiários” do GE.
As declarações do lateral durante sua carreira, como ser fã da Beyoncé e da Christina Aguilera, renderam espaços para posicionamentos homofóbicos. A torcida do São Paulo, time que jogou grande parte da vida, já chegou a pular o nome do atleta durante o anúncio de escalações. Em casos mais excepcionais, o jogador chegou a ser impedido pela diretoria do clube de usar chuteira rosa em uma partida.
Richarlyson é o principal exemplo de um jogador que viu a própria sexualidade falar mais alto que a sua carreira. Hoje, fora das quatro linhas do gramado, já atuou no time “Master 35” de Vôlei Masculino do São Paulo e participou do programa Dança dos Famosos. Nas redes sociais, comentários e piadas homofóbicas são ditas à figura de Richarlyson em relação às escolhas que fez depois da sua carreira no futebol. “A exclusão recai menos sobre a homossexualidade e mais sobre a manifestação de gênero. Mesmo jogadores gays conseguem permanecer no futebol quando reproduzem uma masculinidade considerada tradicional.”, comenta Vanrochris, pós-doutorando no Programa de Gênero e Masculinidades no Futebol.
EMERSON FERRETTI

O atual presidente do Esporte Clube Bahia, Emerson Ferretti, também foi centro das atenções ao se assumir gay. Diferentemente de Richarlyson, o ex-goleiro que teve passagem por clubes como Grêmio e Flamengo, disse ter precisado de terapia para lidar com a situação. “Entendia que futebol não era para homossexuais. Na época da minha adolescência, era considerado doença pela OMS, então o processo foi muito solitário, tinha muito medo de acabar com a minha carreira”, afirmou em entrevista ao programa Conversa com Bial.
A posição que Ferretti ocupa hoje no Futebol, representa um importante passo para a representatividade da comunidade LGBTQIAPN+ no esporte. “Até que um jogador de um grande clube brasileiro se declare publicamente não heterossexual ainda existe um longo caminho de preconceitos a ser vencido.”, ressalta o pesquisador Vanrochris Vieira.
JOSHUA CAVALLO

Ainda atuando nos gramados, e mesmo com medo da repercussão negativa, Joshua Cavallo se tornou um dos raros atletas que se assumiram homossexuais ainda em atividade.
Cavallo viu sua carreira tomar outras proporções ao se assumir. O atleta chegou a manifestar publicamente o seu descontentamento com o posicionamento homofóbico de seu antigo clube, Adelaide United. “Difícil aceitar que eles estavam sendo homofóbicos. Minha raiva era porque as pessoas achavam que alguma lesão me mantinha no banco de reservas, mas era a homofobia internalizada”, disse.
O clube se defendeu dizendo que todas as decisões tomadas passavam por critérios futebolísticos. “Quando você é sempre o último escolhido para jogar, é como se aquele gesto estivesse dizendo que você não pertence àquele espaço.”, constata o doutor em ciências humanas pela UFSC, Vanrochris.
Mas esse não foi o único caso que Josh sofreu. O atleta alega que algumas fotos com seu parceiro virou motivo de risadas em um grupo de bate-papo entre os companheiros de equipe. Segundo o jogador, ele chegou a se questionar se deveria ter exposto sua sexualidade.
Mesmo assim, Joshua Cavallo tem se mantido firme na luta pelo o que acredita. O lateral chegou a pedir o namorado, Leighton Morrel, em casamento no estádio do seu clube.
O jogador ainda teve comentários incisivos sobre sua escolha. “Como jogador de futebol gay, sei que existem outros jogadores vivendo em silêncio. Eu quero ajudar a mudar isso para mostrar que todos são bem-vindos e merecem o direito de serem autênticos”, escreveu em suas redes sociais.
FUTEBOL FEMININO

Se no futebol masculino, a sexualidade ainda é tabu, no feminino jogadoras ganham cada vez mais espaço para falar sobre seus relacionamentos. Segundo dados da Agência Reuters, na Copa do Mundo 2023, teve 87 jogadoras assumidamente homossexuais. Dentre elas, a maior jogadora do futebol Feminino, Marta. Mesmo nunca tendo falado abertamente sobre sua sexualidade, se casou com a ex-companheira de clube Carrie Lawrence.
Outros nomes importantes da modalidade, como Megan Rapinoe, Sam Kerr, Kristie Mewis e Pernille Harder, também vivem seus relacionamentos de forma aberta e se tornaram referências na luta por inclusão e diversidade no esporte.
Apesar da maior representatividade, o futebol feminino ainda enfrenta episódios de lesbofobia e discriminação. É certo afirmar que, a diferença em relação ao masculino está na forma como a modalidade foi historicamente construída. Enquanto o futebol dos homens ainda carrega uma cultura fortemente ligada à ideia de masculinidade e virilidade, o futebol feminino acabou se tornando um espaço onde atletas LGBTQIAPN+ encontraram mais liberdade para viver suas identidades.
Ainda assim, atletas e movimentos reforçam que a verdadeira inclusão só será alcançada quando a orientação sexual ou a identidade de gênero deixarem de ser notícia e passarem a ser tratadas com a mesma naturalidade que qualquer outro aspecto da vida de um jogador ou jogadoras. Para Mariani Pisani, vice-presidente do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estudos do Futebol Brasileiro (INCT-Futebol), o futebol não produz sozinho essas desigualdades, mas reproduz aquilo que já existe na sociedade brasileira, marcada por machismo, misoginia e violência contra mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. “Não é apenas no futebol que mulheres ganham menos; isso acontece na maioria das profissões brasileiras.”
NA ARQUIBANCADA

Longe das quatro linhas, a homofobia ainda é uma realidade constante no futebol brasileiro. Embora avanços tenham sido conquistados nos últimos anos, os estádios seguem sendo um ambiente, muitas vezes, hostil para pessoas LGBTQIAPN+. Cânticos e xingamentos de caráter homofóbico continuam presentes nas arquibancadas, reproduzindo uma cultura de discriminação que ultrapassa o esporte.
Um dos principais alvos desse tipo de preconceito é o São Paulo Futebol Clube. O termo “bambi”, frequentemente utilizado de forma pejorativa por torcedores adversários para se referir aos são-paulinos, surgiu na década de 1990 após uma provocação do ex-jogador Vampeta, então atleta do Corinthians. Com o passar dos anos, a expressão se consolidou como um dos exemplos mais conhecidos da homofobia presente no ambiente futebolístico.
Atualmente, poucos clubes escapam de episódios envolvendo práticas discriminatórias. Como forma de combater esse cenário, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) prevê, no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), punições para casos de discriminação, incluindo a LGBTfobia, cometidos por atletas, dirigentes, integrantes de comissões técnicas, torcedores ou pelos próprios clubes.
Apesar dos desafios, iniciativas voltadas à inclusão têm ganhado força. Entre as maiores torcidas LGBTs do mundo estão coletivos brasileiros como a Porco Íris (Palmeiras), Furação LGBTQ (Athlético-PR), LGBTricolor (Bahia), Vozão Pride (Ceará), Vasco LGBTQ e Marias de Minas (Cruzeiro). Além de promoverem acolhimento e representatividade, esses grupos utilizam as redes sociais e ações presenciais para conscientizar torcedores e incentivar um futebol mais diverso e respeitoso.
Um dos principais articuladores desse movimento é o Coletivo de Torcida Canarinhos LGBT, criado em 2019 para reunir torcedores de diferentes clubes em torno do combate à LGBTfobia no futebol. Para Onã Rudá, fundador da LGBTricolor e um dos idealizadores do coletivo, essas torcidas exercem um papel que vai muito além da representatividade nas arquibancadas.
Segundo ele, a organização nacional dos coletivos permitiu pressionar entidades esportivas e conquistar mudanças concretas, como a criação de protocolos contra a discriminação, a inclusão de dispositivos específicos nos regulamentos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a responsabilização de clubes por episódios de LGBTfobia. Para Rudá, a representatividade, por si só, não basta. “Ela precisa de conteúdo”, afirma. Na avaliação dele, a presença de pessoas LGBTs em cargos de destaque deve ser acompanhada por políticas permanentes que ampliem a participação dessa população em todos os espaços do futebol, das arquibancadas às diretorias dos clubes.
Entretanto, a mobilização das torcidas ainda contrasta com a postura de boa parte dos clubes brasileiros. A ausência de campanhas permanentes, ações educativas e posicionamentos públicos diante de casos de preconceito evidencia que o combate à LGBTfobia ainda não é tratado como prioridade por muitas instituições. Um exemplo disso ocorreu no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, quando apenas Corinthians, Flamengo, Fluminense e Vasco se manifestaram oficialmente em apoio à causa entre os clubes da Série A.
A história de atletas, dirigentes e torcedores LGBTQIAPN+ mostra que o futebol está, aos poucos, se tornando um espaço mais diverso. Ainda assim, o preconceito continua impondo barreiras que afastam pessoas dos gramados e das arquibancadas. Enquanto assumir a própria identidade representa um risco à carreira, à segurança ou ao pertencimento, a pergunta que dá título a esta reportagem permanecerá sem uma resposta definitiva. O futebol só será, de fato, para todos quando o respeito, a inclusão e a igualdade deixarem de ser exceções e passarem a fazer parte da regra do jogo.
Florianópolis, 26/06/2026 – Trabalho (reportagem), produzido para a optativa: Jornalismo Especializado em Esportes, ministrada pela Profª. Raphaela Xavier de Oliveira Ferro (5ª Fase, Jornalismo-UFSC).
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