Reportagem: Quem consegue chegar à Copa do Mundo?

A Copa do Mundo é frequentemente apresentada como o maior encontro entre idiomas promovido pelo esporte internacional. A cada quatro anos, milhões de torcedores atravessam fronteiras para acompanhar de perto suas seleções, conhecer novos países e compartilhar uma paixão com muitas bandeiras, dividindo o mesmo espaço que, ao menos em teoria, ultrapassa as diferenças políticas, econômicas e culturais. Em 2026, no entanto, essa celebração global encontrará um desafio inédito. Pela primeira vez, a competição será sediada por três países – Canadá, Estados Unidos e México –, colocando milhares de torcedores diante de uma disputa que começa antes mesmo do apito inicial: a de conseguir autorização para entrar no país que receberá a maior parte dos jogos.
Embora o torneio seja organizado conjuntamente pelos três países da América do Norte, os Estados Unidos vão concentrar 78 das 104 partidas previstas, incluindo a grande final, marcada para 19 de julho, em Nova Jersey. Para muitos torcedores ao redor do mundo, especialmente aqueles oriundos de países que exigem visto para ingressar em território norte-americano, acompanhar o Mundial presencialmente dependerá não apenas da compra do ingresso ou do planejamento prévio da viagem, mas também do cumprimento de exigências migratórias que variam conforme a nacionalidade. Enquanto cidadãos de 42 países podem entrar nos Estados Unidos da América (EUA) por meio do programa de isenção de vistos, brasileiros continuam obrigados a solicitar o documento antes do embarque.
Diante desse cenário, a edição de 2026 reacende um debate que vai além das quatro linhas do campo. Afinal, até que ponto um evento promovido como uma celebração universal do futebol é, de fato, acessível a todas as pessoas? Quando o acesso ao principal palco do esporte depende do passaporte, do visto e das políticas migratórias de cada Estado, quem realmente consegue chegar à Copa do Mundo para torcer com fervor pela sua nação?
Estados Unidos concentram grande parte dos jogos
Uma série de estreias vai marcar a Copa do Mundo de 2026. Essa vai ser a primeira edição disputada em três países, a primeira com 48 seleções e também a maior da história, com 104 partidas programadas entre os dias 11 de junho e 19 de julho. Apesar da divisão da organização entre os três países, os EUA vão ser o principal palco do torneio com 78 jogos – o equivalente a três quartos da competição –, incluindo a decisão do vencedor no New York New Jersey Stadium, em Nova Jersey.
Essa concentração faz com que as regras migratórias norte-americanas tenham impacto direto sobre milhares de torcedores que pretendem acompanhar o Mundial presencialmente. Enquanto cidadãos de 42 países podem viajar aos EUA por meio do Visa Waiver Program, utilizando apenas a autorização eletrônica conhecida como ESTA, brasileiros continuam obrigados a solicitar um visto de visitante antes do embarque.
A exigência do visto permanece mesmo para quem já garantiu seu lugar nas arquibancadas. A Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) informa que a compra de ingressos não substitui o documento nem garante a entrada nos EUA. Da mesma forma, a obtenção do visto válido não assegura a compra de entradas para os jogos, já que os dois processos são independentes e seguem regras distintas.
Em resposta às preocupações sobre o acesso de torcedores internacionais, a FIFA e o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciaram o FIFA Priority Appointment Scheduling System (FIFA PASS). O programa oferece prioridade no agendamento da entrevista consular para torcedores que já possuem ingressos e precisam solicitar o visto estadunidense. Em declarações oficiais, o presidente da entidade, Gianni Infantino, afirmou que o objetivo é garantir que “todos sejam bem-vindos” ao Canadá, aos Estados Unidos e ao México, destacando que existe cooperação entre a entidade organizadora e as autoridades nacionais para tornar o processo de entrada mais eficiente. Ainda assim, a iniciativa não elimina as exigências migratórias nem garante a aprovação do documento, que continua sujeita à análise das autoridades norte-americanas.
A primeira barreira
Antes mesmo de a bola rolar, a Copa do Mundo de 2026 já impõe a muitos torcedores uma primeira disputa: atravessar as muitas fronteiras. Para Jean Samuel Rosier, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a ideia de um Mundial como celebração coletiva esbarra nas contradições políticas do país que concentra a maior parte do torneio.
Segundo ele, o torneio costuma ser apresentado como um momento de suspensão simbólica das diferenças, em que culturas diversas, conflitos e tensões políticas dariam lugar à festa do futebol. Na prática, a realidade é diferente. “A intenção da Copa é isso, um momento onde a gente esquece todas as nossas diferenças culturais e de política. É um momento de alegria, de esquecer guerras, tudo isso. Mas, não é o que a gente está observando”, avalia.
A fala de Jean ajuda a deslocar a discussão do campo esportivo para o campo migratório. Para assistir a uma partida nos Estados Unidos, não basta comprar o ingresso, reservar hospedagem em um hotel ou acompanhar o calendário da seleção para programar sua viagem. Torcedores de países que não fazem parte do programa norte-americano de isenção de vistos precisam passar pelo processo regular de solicitação do documento. É o caso do Brasil, porque mesmo com a criação do FIFA PASS, sistema que prioriza entrevistas consulares para torcedores com ingressos, a aprovação do documento continua dependendo da análise das autoridades migratórias dos EUA.
Os prazos para obtenção do visto também variam de acordo com o país e o consulado responsável. No Brasil, segundo dados do Departamento de Estado norte-americano, referentes a maio de 2026, o tempo médio de espera era de um mês em Brasília e São Paulo, menos de 15 dias no Rio de Janeiro e Recife, e cerca de dois meses em Porto Alegre. Em outros países latino-americanos, a espera pode ser mais demorada: no Peru, chegava a nove meses, na Colômbia, a oito meses e meio, e no Chile, a quatro meses. Os números evidenciam que a burocracia não afeta todos os torcedores da mesma maneira.
A própria FIFA recomenda que quem pretende viajar solicite o visto com antecedência, lembrando que o ingresso da Copa não substitui o documento nem garante a entrada nos países-sede. Esse alerta reforça a diferença central de que enquanto alguns torcedores podem viajar apenas com passaporte e autorização eletrônica, outros precisam enfrentar taxas, entrevistas consulares, longos períodos de espera e, ainda assim, conviver com a possibilidade de ter seu pedido negado.
Jean conta que esse cenário revela que a Copa do Mundo também está inserida em estruturas políticas e econômicas que não desaparecem durante o campeonato. Segundo o pesquisador, interesses institucionais, comerciais e migratórios atravessam o evento e acabam interferindo na experiência do torcedor. “Você tem uma mistura de tudo: endurecimento em relação a visto, uma questão racial muito forte, muito presente, e uma FIFA a serviço também do capitalismo”, afirma.
Essa primeira barreira, portanto, não está nos portões do estádio, mas antes deles. Está no consulado, no passaporte, no formulário, na entrevista e na decisão final de um Estado sobre quem pode ou não atravessar sua fronteira. Para parte dos torcedores, a Copa do Mundo começa muito antes do hino nacional ou dos gritos de gol. Começa na tentativa de provar que se tem direito de chegar até ela.
Catraca dupla
Para Juliano Oliveira Pizarro, doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador das governanças globais do esporte, soft power, decolonialidade latino-americana e economia política, a principal contradição da Copa do Mundo de 2026 está no fato de que um evento apresentado como global e inclusivo continua condicionado às fronteiras nacionais.
Conforme o especialista, a experiência do torcedor não começa na compra do ingresso, mas muito antes, diante das exigências impostas pelos países-sede. “O futebol aproxima, mas a FIFA é a entidade que governa esse futebol. São coisas diferentes”, explica. Juliano diz que é justamente essa diferença que ajuda a compreender o paradoxo vivido por milhares de torcedores que desejam acompanhar o campeonato presencialmente.
Ele resume essa realidade por meio do conceito que chama de “catraca dupla”. A primeira delas está nas fronteiras. Antes mesmo de pensar em entrar no estádio, os espectadores precisam obter autorização para entrar no país onde acontecerão a maioria dos jogos. A segunda aparece somente depois: o acesso às arquibancadas, condicionado à compra do ingresso. “Ela tem a questão do estádio e do consulado. Não é só comprar o ingresso. Tem que ir ao consulado, conseguir o visto, entrar no país. Essa é a primeira catraca. Depois vem a segunda, que é entrar no estádio.”
Na avaliação do pesquisador, essa diferença faz com que a experiência da Copa varie conforme a origem do torcedor. Enquanto cidadãos de países desenvolvidos, em grande parte contemplados pelo programa de isenção de vistos dos Estados Unidos, conseguem organizar a viagem com menos obstáculos burocráticos, torcedores de países do chamado Sul Global enfrentam um percurso muito mais complexo. “Para torcedores de países ricos é um evento sem fronteiras. Vai lá, compra o ingresso e viaja. Para torcedores do Sul Global existe um verdadeiro labirinto burocrático.”
Mais do que uma questão administrativa, Juliano entende que esse cenário revela uma desigualdade produzida pelas próprias regras de circulação internacional. Embora o futebol seja frequentemente apresentado como uma linguagem universal, o acesso ao principal torneio da modalidade continua condicionado a fatores que pouco têm relação com o esporte, como a nacionalidade, o passaporte e as políticas migratórias dos países anfitriões.
De forma efetiva, isso significa que, para milhares de torcedores, o primeiro adversário da Copa não será a seleção rival, mas a burocracia. O pesquisador resume essa contradição em uma frase que sintetiza o desafio da edição de 2026: “O futebol une a todos, desde que você tenha o passaporte certo e seu país não seja o alvo errado do poder global.”
Quanto custa acompanhar a Copa presencialmente?
Se as exigências migratórias representam a primeira barreira para parte dos torcedores, os custos da viagem aparecem como um segundo desafio. A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história e, para quem pretende acompanhá-la presencialmente, o investimento vai muito além do ingresso.
A FIFA anunciou entradas a partir de US$ 60 na categoria Supporter Entry Tier, disponível para todas as partidas do torneio. Ao mesmo tempo, a entidade adotou o sistema de preços dinâmicos, no qual os valores variam de acordo com a procura. Na prática, esse cenário revela que partidas mais disputadas, como a final, podem alcançar preços muito superiores aos valores iniciais. Segundo a Agência Reuters, os ingressos para a decisão chegaram a ser ofertados por US$ 6.730, enquanto pacotes de hospitalidade ultrapassaram US$ 70 mil, conforme o levantamento da Associated Press.
Além da entrada para os jogos, o torcedor precisa considerar despesas com passagens aéreas, hospedagem, alimentação e deslocamentos entre as 16 cidades-sede distribuídas por três países. Para os brasileiros, há ainda a taxa de US$ 185 para solicitação do visto norte-americano, sem contar eventuais despesas com deslocamento até os consulados para a realização da entrevista.
Jean Samuel Rosier observa que esse conjunto de fatores também influencia a experiência do torcedor. Na visão dele, além das restrições migratórias, o aumento dos custos faz com que acompanhar a Copa se torne cada vez menos acessível. “Você tem uma FIFA a serviço também do capitalismo. O bilhete para entrar nos estádios é caro demais”, afirma.
Assim, as barreiras econômicas somam-se às exigências burocráticas. Para muitos apaixonados por futebol, chegar à Copa do Mundo depende não apenas do desejo de acompanhar sua seleção, mas também da possibilidade de superar uma sequência de obstáculos financeiros e políticas migratórias discriminatórias.
Florianópolis, 02/07/2026 – Trabalho (reportagem), produzido para a optativa: Jornalismo Especializado em Esportes, ministrada pela Profª. Raphaela Xavier de Oliveira Ferro (5ª Fase, Jornalismo-UFSC).
“Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras.”
Cada palavra e ideia aqui compartilhada são frutos de minha autoria e dedicação. O plágio é crime, conforme previsto no artigo 5º, inciso XXVII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei 9.610/98, e pode resultar em sanções legais. Respeitar o trabalho alheio é essencial para a construção de um ambiente de aprendizagem, criatividade e respeito mútuo.

Deixe um comentário