Reportagem: Preconceito ainda dita as regras do jogo no país do futebol

Mulheres, negros e pessoas LGBTQIAPN+ lutam pelo direito de existir e torcer em liberdade

Paixão nacional. O amor que move todo o Brasil, pinta rostos e transforma estádios em templos. Vestir a camisa por 24 horas é, para muitos, uma extensão da própria identidade. Mas quem, de fato, pode viver essa paixão sem sentir medo no país do futebol? Entre a alegria das arquibancadas e a vibração dos gritos de gol, persiste um problema histórico: o preconceito que ainda marca presença dentro e fora dos gramados.

Em 2023, o Relatório da Discriminação Racial, produzido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em parceria com o Grupo de Estudos sobre Esporte e Discriminação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), registrou 250 casos de discriminação. Foram 222 no futebol e 28 em outros esportes. Entre as denúncias, o racismo lidera com 75%, seguido por homofobia (16%), xenofobia (6%), e machismo (4%).

A antropóloga Mariane Pisani, corinthiana, professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e vice-presidente do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estudos do Futebol Brasileiro (INCT-Futebol), explica que o futebol vai muito além das quatro linhas. “Ele é um retrato da sociedade brasileira, reflete as estruturas de poder e desigualdades do país. É dominado pelo núcleo Rio de Janeiro-São Paulo, e o que a mídia escolhe mostrar reforça essa hierarquia. Quando se transmite Corinthians e Flamengo em horário nobre, se eclipsam-se clubes do Norte e Nordeste”, explica.

A legislação brasileira prevê instrumentos de combate à discriminação, mas a aplicação prática ainda é limitada. Segundo o advogado especializado em direito esportivo Marcos Vinícius Ferreira Corrêa, a Nova Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) incorporou dispositivos voltados à prevenção da discriminação e da violência. Outras normas relevantes incluem o Estatuto do Torcedor (Lei nº 10.671/2003), a Lei nº 7.716/1989, que define crimes de preconceito, e a Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998).

Para Marcos, o problema não está na falta de legislação, mas na falta de integração entre elas. “Essas normas ainda carecem de aplicação conjunta. O mesmo fato é tratado ora como infração disciplinar, ora como crime, sem diálogo entre a Justiça comum e a Justiça Desportiva”, afirma.

Racismo

O racismo no Brasil passou a ser oficialmente considerado crime com a promulgação da Lei Caó (nº 7.716/89), sancionada em 5 de janeiro de 1989. Ainda assim, mais de três décadas depois, ele persiste em diversas esferas da sociedade, e o futebol, infelizmente, não é exceção.

A exclusão racial no futebol brasileiro, no entanto, é muito anterior à criminalização do racismo. Poucas décadas após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, que aboliu oficialmente a escravidão, o esporte que se consolidava como paixão nacional já reproduzia as divisões sociais e raciais herdadas do período escravocrata. Desde o início do século XX, a presença de pessoas negras nos clubes era motivo de resistência das elites.

O pesquisador e jornalista Wesley Barbosa Machado lembra, em artigo publicado no Ludopédio, maior portal de divulgação científica sobre futebol da América Latina, que os grandes clubes proibiam jogadores negros, enquanto outros, ligados às classes populares – como o Vasco da Gama e o Bangu – se tornaram espaços de ruptura. Essa história de exclusão e resistência explica por que o racismo no futebol brasileiro não é um desvio recente, mas algo que faz parte da própria fundação do esporte no país.

Dentro dos estádios, onde a emoção e a paixão pelo esporte deveriam unir as pessoas, episódios de racismo continuam a acontecer com frequência. Casos como o do atacante Vinicius Júnior, do Real Madrid, um dos principais jogadores de futebol do mundo, são amplamente divulgados pela mídia, mas estão longe de ser isolados.

Antes mesmo da bola rolar, o futebol já carrega expectativas e também preconceitos, dentro e fora de campo. Um exemplo recente ocorreu com Paulo Vitor, zagueiro do Nacional-PR, durante uma partida contra o Batel de Guarapuava. Após uma discussão em campo, o volante Diego, do time adversário, ofendeu o zagueiro com um insulto racista, chamando-o de “macaco”. 

Em resposta, Paulo Vitor reagiu com um soco, o que levou à sua expulsão. Diego porém permaneceu em campo até o fim do jogo, e seu time acabou classificado para a próxima fase da competição. Somente após a partida, o Batel publicou uma nota anunciando a demissão do jogador e reforçando sua posição contrária ao racismo.

Momento em que Paulo Vitor desfere soco em Diego. Foto: Reprodução/FPF TV.

Em uma publicação no Instagram, Paulo Vitor manifestou indignação com o ocorrido. O jogador afirmou que não é a favor da violência, mas que sua reação foi consequência da agressão sofrida. Ele também destacou que espera que o caso seja tratado com seriedade e não minimizado.

O desfecho da história, no entanto, reforçou a sensação de injustiça. Segundo a Agência Brasil, o Tribunal de Justiça Desportiva do Paraná (TJD-PR) puniu Paulo Vitor com suspensão de dez jogos, enquanto o agressor, Diego Gustavo de Lima, recebeu gancho de sete partidas. Em novo pronunciamento, o jogador afirmou nas redes sociais não se sentir amparado e questionou a decisão. “Meu sentimento já era de impotência, agora ainda mais. Não me senti amparado e queria entender realmente essa sentença de a vítima pegar mais jogos do que quem cometeu o crime”, expõe o jogador.

O racismo no futebol revela uma estrutura que resiste às mudanças. “A estrutura é mais forte que o escândalo. Confunde-se representatividade com igualdade e trata-se o racismo como parte aceitável do espetáculo”, diz o advogado desportivo Marcos Corrêa.

Para ele, as leis existem, mas a cultura jurídica e esportiva ainda relativiza o sofrimento negro. “Clubes e federações têm dever jurídico e ético de garantir a integridade dos eventos. A omissão gera responsabilização civil, administrativa e desportiva. O clube não é espectador, é anfitrião do ambiente onde o crime ocorre”, completa.

Segundo Juliano Oliveira Pizarro, torcedor do Pelotas (RS), doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador das relações entre futebol, decolonialidade e desigualdade de gênero, o racismo não será combatido apenas com leis. “A transformação é cultural e exige debate público, representatividade e educação desde a infância nas escolas.”

Homofobia

A LGBTfobia continua sendo uma ferida aberta no futebol brasileiro. Mesmo com avanços pontuais, o esporte mais popular do país ainda reproduz a lógica da exclusão, dentro e fora dos estádios. Essa é a avaliação de Juliano Oliveira Pizarro, doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador das relações entre futebol e desigualdades de gênero. “Falando português bem claro: não é prioridade do futebol acabar com a homofobia”, afirma.

Historicamente, o futebol foi construído como um espaço de afirmação da masculinidade heteronormativa. E qualquer desvio desse padrão é punido, seja por xingamentos, olhares tortos ou pela violência direta. Mas também é dentro desse campo que surgem as resistências.

Desde a década de 1970, torcedores LGBTQIAPN+ lutam por espaço. Um dos marcos dessa trajetória é a Coligay, torcida organizada do Grêmio criada em 1977 em Porto Alegre, um ato de coragem em plena ditadura militar. À época, o grupo enfrentou hostilidade e preconceito, mas abriu caminho para o surgimento de coletivos que, anos depois, continuariam a reivindicar visibilidade e segurança nas arquibancadas.

Entre os movimentos mais recentes está o Porco-íris, coletivo palmeirense fundado em 2019 com o slogan “Somos diversos, somos Palmeiras.” Diferente de uma torcida organizada, o grupo não atua de forma institucional nas arquibancadas, mas como um espaço de articulação e acolhimento. O coletivo nasceu com o objetivo de incluir e criar vínculos entre torcedores LGBTQIAPN+ que amam futebol, mas muitas vezes não encontram companhia por medo de hostilidade.

Hoje, o Porco-íris conta com alcance de 17,9 mil seguidores no Instagram e 14 diretores em sua composição. Entre eles está Letícia Pigari, 28 anos, publicitária, bissexual e palmeirense do interior de São Paulo, como muitos torcedores, herdou o amor pelo time do pai. Integrante do coletivo há três anos, Letícia se envolveu tanto pela pauta da diversidade quanto pela defesa do futebol feminino. “O Palmeiras, desde a sua fundação, tem um estatuto que é apolítico. Mas, se a gente for parar para pensar, não estamos tomando o lado de um partido. Estamos apenas defendendo a nossa existência”, ressalta.

Em 2025, apenas dois clubes da Série C – Figueirense e Náutico – se manifestaram publicamente no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, em 28 de Junho, data que marca também 35 anos desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de considerar a homossexualidade como doença. Na Série B, foram sete. E, na Série A, 18 dos 20 clubes – com exceção de Mirassol e Juventude. Mesmo assim, muitas ações ficaram restritas às redes sociais e duraram apenas 24 horas, como no caso do Palmeiras que dentre os 18 clubes que se manifestaram, somente ele publicou um story.

“Quando o Palmeiras postou aquele story, foi frustrante. A gente pensou: ‘Só isso?’ Todo mundo fez um post no feed e eles não. É como se não existissem torcedores palmeirenses LGBTQIAPN+, mas existe e estamos bem aqui. Eu sempre digo que, na hora do gol ou da comemoração de um título, a gente abraça quem está ao lado, sem nem pensar quem é”, completa Letícia.

Print de story publicado pelo Palmeiras no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, editado pelo coletivo Porco-íris com comentários feitos por torcedores queer do clube paulista. Imagem: Reprodução/Porco-íris.

O contraste entre o discurso digital e a realidade das arquibancadas ficou evidente em agosto de 2025, quando Leonardo Moura e Lucas Rabelo, um casal de torcedores do Corinthians, foram vítimas de homofobia na Neo Química Arena, durante o clássico contra o Palmeiras. Leonardo conta que nunca se viu representado no futebol até conhecer Lucas. “Passei a ver o jogo de outro ângulo e isso virou o nosso momento de lazer. O esporte é arte. A vida por si só não basta, a gente precisa do que nos nutre com esperança. Para muita gente, o futebol é isso.”

Casal corinthiano vítima de homofobia, Leonardo Moura e Lucas Rabelo, lutam pelo direito de torcer em liberdade na Neo Química Arena. Foto: Arquivo pessoal.

Após serem ameaçados de morte e acusados de “estarem na torcida errada”, o casal decidiu deixar o estádio antes do intervalo. Leonardo lembra que foi a primeira vez que realmente se sentiu uma aberração, “daquele jeito que a nossa comunidade é ensinada a se sentir. Eu não queria brigar. Só queria me enfiar num buraco e sumir. Me senti o problema, e não a vítima”, relembra.

Lucas recorda que sempre há policiamento no estádio, mas naquele momento parecia que o mar havia se aberto e não havia ninguém por perto. “Eu paguei por aquele lugar, eu tinha o direito de estar lá como qualquer outro torcedor.”

O Corinthians entrou em contato no dia seguinte, prometendo apoio jurídico, mas o casal afirma que a conversa não teve continuidade. Leonardo conta que os representantes do clube pareciam mais preocupados em garantir que eles não processassem o clube do que em resolver o problema. “Quando perceberam que não era nossa intenção, sumiram.”

O caso só avançou depois que o deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP), levou a denúncia ao Ministério Público. Mesmo assim, o inquérito segue em andamento. Lucas diz que, por ele, teria ido ao jogo seguinte. “A gente não pode deixar o medo vencer. O estádio também é nosso lugar”, defende.

Leonardo completa que não basta apenas não ser preconceituoso, é preciso agir contra o preconceito. “Imagine se todos os clubes fizessem a sua parte, o mundo seria um lugar melhor para se viver, ele é de todos nós. Onde quisermos estar, devemos estar.”

Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) determina que a homofobia e a transfobia sejam enquadradas como crimes, com base na Lei nº 7.716/1989, antes voltada apenas à discriminação racial. A decisão ampliou a norma para punir também atos de preconceito por orientação sexual ou identidade de gênero, com pena de um a três anos de reclusão e multa.

Ainda assim, o Brasil segue liderando o ranking mundial de crimes contra a população LGBTQIAPN+. Em 2023, foram registradas 257 mortes violentas de pessoas queer, segundo o Grupo Gay da Bahia. No mesmo ano, o país também ocupou o primeiro lugar – pelo 16º ano consecutivo – nos assassinatos de pessoas trans e travestis, com 105 homicídios, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).

Em Santa Catarina, o cenário político reforça a urgência do debate. A Região Sul é a única do país onde há mais projetos de lei contrários aos direitos LGBTQIAPN+ do que favoráveis. Desde 2019, o estado apresentou 17 propostas anti-LGBT e apenas quatro em defesa da comunidade.

Vanrochris Vieira, jornalista, doutor em Ciências Humanas pela UFSC e pós-doutorando no Programa de Gênero e Masculinidades no Futebol, lembra que o afastamento das pessoas LGBTQIAPN+ começa ainda na infância. “Quando eu era criança, era um menino muito afeminado, e isso me deixou de fora de todas as práticas masculinas da escola, inclusive o futebol. Ser sempre o último a ser escolhido para o time te coloca num lugar: o de não pertencer a lugar algum.”

Ele explica que a exclusão no futebol vai além da orientação sexual. “O futebol é um espaço de reprodução da masculinidade tóxica tradicional. Ali, os meninos são educados para se tornarem homens dentro de um modelo específico, o do homem viril, cis e heterossexual. No futebol, a exclusão recai menos sobre a homossexualidade e mais sobre ser afeminado. Percebi isso na minha pesquisa sobre dois times LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte: Bharbixas e ManoTauros”, destaca.

A pesquisadora Soraya Bertoncello, gremista, jornalista, bissexual e doutoranda em Comunicação, reforça que o engajamento dos clubes muitas vezes é apenas simbólico. “Os clubes perceberam que o torcedor virou um consumidor mais exigente e querem parecer engajados, mas isso raramente se traduz em ações reais. Faltam medidas concretas, como carteirinhas com nome social, palestras, ingressos mais baratos, letramento para atletas e funcionários e contratação de pessoas LGBTQIAPN+”, critica.

O advogado desportivo Marcos Corrêa avalia que medidas punitivas, mesmo quando simbólicas, têm valor pedagógico. “A perda de pontos por cantos homofóbicos é uma medida simbólica, mas extremamente necessária.” Na prática, porém, sanções mais severas ainda são raras. Até hoje, no Brasil, não há registros de equipes excluídas de competições por episódios de homofobia, embora esse tipo de punição já tenha sido aplicado em casos de racismo, como em 2014, quando o Grêmio (RS) foi removido da Copa do Brasil.

Machismo

“Muitas mulheres deixam de denunciar violências em estádios porque não acreditam que vai dar em algo. O sistema judiciário duvida da vítima”, afirma a pesquisadora Mariane Pisani. Essa descrença não nasce apenas da experiência adulta, ela é cultivada desde cedo, quando meninas aprendem, de forma simbólica, que o centro não é lugar para elas.

Pesquisas como as das arquitetas Honorata Grzesikowska e Ewelina Jaskulska mostram que, já no pátio da escola, os meninos ocupam o centro e as meninas são empurradas para as bordas. É o que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de violência simbólica, uma forma silenciosa de ensinar, desde a infância, que o protagonismo e o espaço de jogo pertencem aos meninos. Esse aprendizado se repete no futebol, onde a presença feminina ainda é vista como exceção.

Quadra escolar e mapas de uso. Meninos concentram–se no centro, meninas na borda. Imagem: Reprodução/Honorata Grzesikowska, Architectoniczki.

Mesmo para mulheres cisgênero, o futebol ainda é um ambiente marcado pela violência. Para mulheres trans e travestis, no entanto, as barreiras são ainda mais rígidas. Além da misoginia, elas enfrentam a transfobia, que limita sua presença tanto nas arquibancadas quanto dentro de campo. Em diferentes partes do mundo, como nos Estados Unidos, medidas recentes que proíbem a participação de mulheres trans em competições femininas reacendem o debate sobre inclusão e direitos humanos no esporte, tensões que também se refletem no cenário brasileiro.

Em 1983, o futebol feminino ainda era um ato de coragem. Naquele período, jogar bola era desafiar uma cultura inteira que, durante quarenta anos (1941-1979), proibiu oficialmente as mulheres de pisar em campo para jogar bola. Foi nesse cenário que nasceu o time Ação Esportiva, formado por estudantes da então Escola Superior de Educação Física (ESEF), em Florianópolis, capital catarinense. Entre elas estava Rita de Cássia Romeiro Paulino, conhecida nas quatro linhas do campo como Kika, hoje professora de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Time de futebol feminino ‘Ação Esportiva’ de Santa Catarina em 1983. Foto: Reprodução/Revista Ação Esportiva.

“O que realmente fazia diferença era ter a oportunidade de jogar futebol. Nem mesmo na faculdade havia uma disciplina voltada para as meninas, era um espaço reservado aos meninos”, lembra Rita.

A equipe era organizada como um clube profissional: técnico, preparador físico, viagens, hospedagem e uniformes. Tudo garantido, mas sem salário. Jogar, para elas, já era um privilégio. “Lembro das vezes em que fazíamos as preliminares dos jogos do Figueirense e do Avaí. Era emocionante estar em campo antes dos grandes times, vivendo aquele clima de torcida e paixão.”

Mesmo assim, o preconceito se infiltrava em cada detalhe, dentro e fora de casa. “Minha família nunca me apoiou. Hoje percebo que há um certo arrependimento por isso. A gente jogava com o coração, sem saber que estava fazendo história”, relembra.

O projeto da Revista Ação Esportiva, que financiava o time, usava o discurso de “integração esportiva e turística” para legitimar a presença das mulheres em campo. O futebol feminino, tratado como entretenimento, só ganhava espaço sob a desculpa de promover o turismo catarinense. Ainda assim, foi o suficiente para abrir brechas. “Acho que foi uma estratégia de marketing para divulgar a revista, mas também nos deu visibilidade. Queríamos apenas jogar e mostrar nosso talento”, conta Rita.

Quase meio século depois, em Antônio Carlos, município da Grande Florianópolis localizado a cerca de 35 quilômetros a oeste da capital, outra geração de mulheres segue lutando pelo direito de jogar, agora em um cenário mais moderno, mas com velhos obstáculos.  Jéssica Maria da Silva, 33 anos, é uma das jogadoras do único time feminino amador de futebol da cidade chamado de ‘Só pela resenha’, criado em 2022. Diferente da Ação Esportiva, o grupo dela não tem patrocínio, apoio público, nem espaço fixo para treinar. 

Em uma cidade onde campeonatos femininos de futebol não existem, o time sobrevive pelo apoio nas redes sociais e pela paixão pelo esporte. “Jogamos e treinamos duas vezes por semana, por conta própria. Não temos apoio da prefeitura, nem ginásio para treino”, conta.

Time de futebol feminino amador ‘Só pela resenha’ de Antônio Carlos (SC). Da esquerda para a direita: Hab, Steffany, Pamela, Aline, Ana Beatriz, Patrícia, Franciele, Michele, Vanessa, Kelly, Katia, Janaína, Jéssica e Luísa. Foto: Arquivo pessoal.

Jéssica reconhece que o time delas é uma forma de resistência, mas também de representação verdadeira. “O preconceito vem de fora de campo, por não darem o mesmo espaço e visibilidade que o futebol masculino tem. A gente representa meninas e mulheres que só precisam desse momento para se distrair e se divertir. Lugar de mulher é onde ela quiser”, relata.

Entre Rita e Jéssica há mais de quarenta anos de distância, mas a mesma luta pela dignidade de jogar em liberdade as une: ocupar o campo e transformar o que sempre foi negado em espaço de pertencimento. “O futebol feminino é mais do que um jogo. É uma história de resistência, de conquista e de amor”, diz Rita.

De acordo com a pesquisadora Mariane Pisani, o mercado esportivo começou a mudar após a exigência da Federação Internacional de Futebol (FIFA), em 2019, para que clubes da primeira divisão mantivessem equipes femininas. “O futebol é produto. O feminino foi visto como ‘não vendável’ por muito tempo. Corinthians ‘As Brabas’ e Cruzeiro ‘As Cabulosas’ mostram que é possível valorizar as atletas, mas ainda há dirigentes que tratam o futebol feminino como obrigação. As mulheres estão no futebol e vão ficar: jogadoras, técnicas, árbitras, narradoras, pesquisadoras.”

A presença feminina no futebol segue, muitas vezes, limitada. Em certas situações, ela só é assegurada em contextos específicos, como em partidas com restrição de público, nas quais apenas mulheres, crianças e pessoas com deficiência podem acessar os estádios, uma medida de segurança que também revela o quanto esses ambientes ainda são marcados pela violência de gênero.

A jornalista Soraya Bertoncello reafirma o sentimento de quem resiste dentro e fora de campo. “Não existe futebol masculino ou feminino. Existe futebol. O esporte não tem gênero.”

O futebol, afinal, é memória viva. Um grito de gol que atravessa gerações. Uma camiseta passada de avô para neto como herança afetiva. Como no caso de Ênio Schlemper, torcedor do Figueirense com 104 anos, a mesma idade do clube. Casado há 75 anos com Nilsa Wanda Pinto Schlemper, também torcedora do Figueira, ele fala com a serenidade de quem viu o futebol nascer, crescer e, por vezes, se perder pelo caminho. “É muito triste. As pessoas vão para se divertir e acabam brigando… A gente fica abalado. E acho que os clubes também têm culpa, sabe? Porque deixam os torcedores entrarem com coisas nos jogos, mesmo revistando. Aí já começa a confusão.”

Casal Figueirense, casados há 75 anos, Ênio Schlemper e Nilsa Wanda Pinto Schlemper em sua residência em Florianópolis (SC). Foto: Ariéll Cristóvão e Ediane França.

Mesmo diante dessas adversidades, ele não perde a esperança. “Vai chegar o dia em que a provocação vai ser só na alegria do gol. Minha esperança é grande”, completa.

Casos como os de Paulo Vitor, Leonardo Moura e Lucas Rabelo, Rita Paulino e Jéssica da Silva mostram que episódios de racismo, LGBTfobia e machismo não são exceções, mas parte de um problema estrutural. A pesquisadora Mariane Pisani defende que pensar o futebol é também pensar o Brasil. “Assim como o futebol é parte da sociedade brasileira, a ciência também é. A universidade é um espelho da nossa sociedade. E o futebol, nesse espelho, aparece como um espaço de disputa, de vida, e de uma possível não violência.”

A mudança passa, inevitavelmente, pela educação. É nas relações sociais que o preconceito se forma, e é nelas que precisa ser combatido. São avanços muitas vezes silenciosos, mas capazes de transformar o futuro. Porque o futebol não é só paixão nacional. É também um espaço de pertencimento e de reivindicação de direitos.


Florianópolis, 18/10/2025 – Trabalho (reportagem), produzido para a disciplina: Linguagem e Texto Jornalístico III, ministrada pela Profª. Jéssica Gustafson Costa (4ª Fase, Jornalismo-UFSC).

Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras.”

Cada palavra e ideia aqui compartilhada são frutos de minha autoria e dedicação, em conjunto com minha parceira de curso, Ediane França Picanço (edianef19@gmail.com). O plágio é crime, conforme previsto no artigo 5º, inciso XXVII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei 9.610/98, e pode resultar em sanções legais. Respeitar o trabalho alheio é essencial para a construção de um ambiente de aprendizagem, criatividade e respeito mútuo.

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