Paper dissertativo-argumentativo: Ausência/presença de jornalistas negros nas redações e como isso afeta a produção jornalística

1. Introdução:

Quando eu era criança, ligava a televisão procurando alguém parecido comigo, com o meu tom de pele, com o meu cabelo encaracolado, com a minha história. Procurava um(a) jornalista negro sentado à bancada conduzindo o noticiário, sendo reconhecido como quem conta o Brasil e de certa forma o mundo. Quase nunca encontrei. A ausência era gritante e, mesmo sem que ninguém precisasse me explicar, eu “aprendi” que aquele não parecia ser “um lugar para mim”.

Essa experiência não é só minha. Ela expressa um retrato das redações brasileiras: espaços ainda marcados pela branquitude, pela cisheteronormatividade e pelos homens como padrão estético, intelectual e profissional. Em um país onde mais da metade da população é negra, continua sendo minoria quem ocupa o lugar simbólico de narrar a realidade com humanidade, de fiscalizar os poderes, de combater informações falsas. E quando determinados corpos não aparecem diante das câmeras, quando suas vozes não ecoam nas rádios, nas redações e nos telejornais, o que é que a sociedade deixa de ver? O que é que ela desaprende sobre si mesma?

A discussão racial no jornalismo brasileiro não se limita à representatividade visual. Trata-se de entender quem está autorizado a escolher pautas, a contatar fontes, a decidir quais vidas merecem manchete e quais serão reduzidas a estatísticas. Embora políticas de inclusão, como as cotas no ensino superior, tenham ampliado o acesso de estudantes negros à universidade, a presença desses profissionais não se traduz de maneira proporcional no mercado de trabalho. Pesquisas apontam que jornalistas negros seguem sub-representados nas redações e, quando inseridos, frequentemente atuam em funções precarizadas ou são limitados a cobrir apenas temas ligados à sua própria racialidade, como se existissem apenas para falar sobre racismo, e não para disputar de forma crítica todos os territórios pautados pela mídia.

Diante desse cenário, este paper dissertativo-argumentativo parte da seguinte questão-problema: De que forma a ausência (ou presença) de jornalistas negros nas redações impacta o tipo de jornalismo produzido no Brasil?

A hipótese que orienta esta pesquisa é que a baixa representatividade racial nas redações contribui para a reprodução de estereótipos, para a invisibilização de corpos negros e para uma mídia que continua restrita a um olhar único – um olhar que raramente nos enxerga com humanidade. A imprensa, enquanto pilar democrático, sofre quando a pluralidade é sufocada: perde profundidade, sensibilidade, ética e verdade.

Metodologicamente, este trabalho estrutura-se como uma pesquisa qualitativa, a partir de entrevistas semiestruturadas com três profissionais negros em diferentes estágios da carreira jornalística: uma estudante, um recém-formado e uma jornalista atuante. Suas vozes, combinadas ao referencial teórico, possibilitam compreender como o racismo estrutural molda tanto o ingresso quanto a permanência desses profissionais na área, e de que forma sua presença – quando ela existe – transforma o modo como o Brasil é contado.

No fim das contas, investigar esse tema é perguntar quem tem o direito de contar a história. Se, como disse George Orwell, “a história é escrita pelos vencedores”, o jornalismo brasileiro ainda insiste em escolher sempre os mesmos “vencedores” para narrá-la. E o que muda quando pessoas negras passam a ocupar, de fato, o centro desta narrativa? Quando deixamos de ser os figurantes/as estatísticas e passamos a ser sujeitos da notícia? Talvez aí a gente descubra que o Brasil é muito maior do que aquilo que a branquitude permitiu que coubesse nas telinhas até agora.

2. Fundamentação teórica:

2.1 Mídia, identidade negra e exclusão simbólica:

Antes de chegar às redações, o corpo negro já tinha sido editado pela mídia hegemônica. Quando ligamos a TV para assistir um canal de notícias, não estamos apenas consumindo informação, estamos vendo quais vidas são consideradas narráveis. Vieira & Silva (2014) mostram como a mídia brasileira participa ativamente da reprodução do racismo estrutural, seja pelo silêncio, seja pela forma como escolhe enquadrar a população negra em seus variados nichos. Em outras palavras: a mídia não é neutra, o jornalismo não é neutro, eles têm lados e, historicamente, esse lado não foi o nosso (infelizmente continua não sendo).

Muniz Sodré, citado pelos autores, fala da “síndrome de vampiro”: o negro olha para o espelho midiático e não se reconhece. Ou não aparece, ou aparece deformado, estereotipado, reduzido a funções muito específicas – o atleta, a empregada doméstica, o “caso de polícia”. É como se dissessem o tempo todo: você existe, mas apenas desse jeito. Quando a mídia funciona assim, ela não apenas “informa”; ela adestra o olhar social sobre quem é digno de empatia e quem pode ser descartado na lixeira mais próxima.

Essa distorção não é um acidente isolado, mas um efeito da ideologia da branquitude e do velho mito da democracia racial, discutidos por autores como Araújo, D’Adesky, Bento e Munanga. A branquitude se coloca como uma espécie de régua métrica de humanidade, de beleza, de competência e até de “universalidade”. Já o mito da democracia racial funciona como uma maquiagem: diz que “somos todos iguais”, enquanto esconde por trás de máscaras metafóricas as hierarquias concretas que atravessam as escolas, o mercado de trabalho e, claro, os meios de comunicação. Se todo mundo é igual, por que quase sempre são os mesmos corpos, brancos, que aparecem como narradores legítimos da realidade?

Nesse cenário, a ausência de jornalistas negros nas redações não é apenas um dado estatístico triste: ela é um mecanismo, uma alavanca que ajuda a manter o mesmo roteiro. Quando quem pauta, escreve, edita e apresenta é quase sempre branco, as experiências negras tendem a surgir como “objeto” de matéria, e não como ponto de vista necessário. A periferia aparece, mas o “favelado” não assina a matéria. A morte em operação policial vira número, mas o jovem negro nunca é reconhecido como sujeito de uma história interrompida. A própria seleção de temas, fontes e enfoques revela o que Vieira & Silva (2014) chamam de exclusão simbólica: estar no mundo, mas não caber na narrativa.

Quando a mídia insiste em operar a partir desse lugar, ela não só falha com a população negra, mas com a democracia. Lembrando que esse é o seu principal dever: fiscalizar o legislativo, judiciário e executivo em prol da liberdade de expressão (com o limite de não ferir uma vida). Porque um jornalismo que só enxerga um tipo de corpo, um tipo de voz, um tipo de experiência, não está apenas informando mal: está ajudando a sustentar um país em que algumas vidas têm direito à complexidade, e outras seguem confinadas a estereótipos ultrapassados. E, se o papel do jornalista é fiscalizar os três poderes… quem nos fiscaliza?

2.2 A televisão e o espelho social:

A televisão, esse espelho moderno pendurado na parede da sala do povo brasileiro, tem poder de vida e morte simbólica. Se a identidade se constrói pelo reflexo, como lembra Hamermüller (2018), o que acontece quando um menino negro cresce sem se ver refletido? Quando liga a TV e só encontra corpos como o seu na dor, na subalternidade, na suspeita amedrontada?

A televisão brasileira, especialmente aquela que alcança quase todos os lares, ainda insiste em dizer que o país é branco, ou melhor, que só o branco merece estar no centro da narrativa, com voz firme e autoridade. Nas bancadas dos telejornais, onde se decide o que é relevante para o país, os corpos negros aparecem como exceção. Glória Maria, Heraldo Pereira, Maju Coutinho: nomes que brilham, mas que também denunciam a solidão desses lugares. Símbolos isolados não são o mesmo que representatividade.

Hamermüller (2018) mostra que esse apagamento não é aleatório: ele organiza o que é possível ser. A Rede Globo, maior espelho do país, decide diariamente quem tem o “timbre certo”, o “cabelo certo”, o corpo autorizado a informar o Brasil. Os demais – nós (povão) – ficamos nos bastidores da história ou somos convocados apenas para falar sobre violência, carnaval ou pobreza. Nossos corpos se tornam pauta, não protagonistas.

E é curioso – ou cruel – notar que no 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a emissora decide, subitamente, lembrar que existimos. A bancada escurece por um dia, a câmera foca em nós, e o país finge reparação histórica. Mas, quando o calendário vira, a branquitude reassume o posto de padrão universal, e nós voltamos a ser minoria tolerada nos bastidores dos programas televisivos.

A presença ou ausência de jornalistas negros na televisão não é apenas uma questão estética. É política. É sobre quem pode contar o Brasil e a partir de qual olhar. É sobre quebrar o ciclo de que só nos cabe representar a dor e nunca o futuro.

Quando uma menina negra vê Maju apresentando o Jornal Nacional, ela não vê só uma jornalista: ela vê uma possibilidade. Um raio de sol brilhando no horizonte que por tanto tempo foi censurado, interditado como privilégio das elites.

Mas a representatividade esporádica não basta. Um espelho que só nos mostra de corpo inteiro alguns dias do ano continua distorcido. Enquanto a branquitude seguir ocupando a maioria absoluta das cadeiras de poder e enquadramento, o espelho da nação seguirá rachado.

A televisão pode reforçar o racismo estrutural e, tantas vezes, continua reforçando. Mas ela também pode ser a ferramenta que rompe esse ciclo, mostrando ao país e ao mundo que a autoridade também tem cor preta. Que o protagonismo também tem cabelo crespo. Que a notícia também fala com a nossa voz.

2.3 Desigualdade no mercado de trabalho jornalístico:

A universidade abriu as portas, mas o mercado colocou uma tranca logo depois. Becker & Figaro (2021) mostram que, com a Lei de Cotas e outras políticas de inclusão, a população negra conquistou mais acesso às graduações em Comunicação – os dados indicam que o número de estudantes negros no ensino superior cresceu quase 400% entre 2010 e 2019, mas ainda abaixo da representatividade real da população brasileira.

Só que o diploma não garante futuro, ainda mais em um país em que a obrigatoriedade do diploma de jornalista deixou de ser necessário em 2009, após o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubar a exigência. O que deveria ser uma ponte virou, muitas vezes, uma travessia precária: carreiras curtas, vínculos instáveis, salários baixos. A pesquisa revela que 70% dos jornalistas negros ganham até R$ 5.500,00 e que 43% trabalham mais de 9 horas por dia, carregando a profissão nas costas para receber metade do reconhecimento (ou nem isso).

Os números escancaram o óbvio: não somos minoria na competência; somos minoria nas chances. A pesquisa Retij/SBPJor (2021) aponta que nós representamos 30% dos jornalistas brasileiros, mas 68% dos profissionais nas redações ainda são brancos. E quando olhamos para o topo das estruturas, o abismo cresce: nenhum dos grandes veículos da amostra internacional analisada tinha editores não brancos no comando.

É a mesma lógica que Sodré chama de sistema patrimonialista da mídia: o jornalismo brasileiro segue organizado como um clube da branquitude, que só admite pessoas negras desde que fiquem fora do foco de decisão. Quando entram, são jogadas para as funções do “chão de fábrica” da comunicação – mais de 50% atuam em cargos operacionais, quase nenhum em chefia. Isso nos transforma em mão de obra barata que produz muito e decide pouco.

Se o acesso aumentou, a ascensão continua interditada. E essa interdição tem nome e sobrenome – racismo estrutural – econômico, simbólico e institucional. Ele aparece na pejotização que empurra profissionais negros para a informalidade (mais de 30% trabalham como PJ ou freelancer), nas jornadas exaustivas, no fato de metade precisar de duas ou mais fontes de renda para conseguir pagar as contas. Ou seja: a porta abre, mas o teto cai na nossa cabeça com força. 

Por isso, Becker & Figaro (2021) sintetizam bem a realidade. “Mais acesso, poucas oportunidades.” A presença negra nas redações não deve ser comemorada apenas em números. Ela precisa significar poder de narrar, de decidir pauta, de editar manchete, de transformar fala em paráfrase. Representatividade não pode ser uma “máscara” esbanjada só na vitrine; precisa ser transformação estrutural. Sem isso, o risco de sermos a geração cotista que virou estatística vai continuar aumentando em grande escala: formados, mas censurados. Falo isso como um estudante pardo de jornalismo que ingressou na universidade pública e de qualidade por cota racial.

2.4 Jornalistas negros falando das redações: solidão, cobrança e “setoristas de negritude”:

Se até aqui eu falei da mídia e do mercado de trabalho a partir de quem observa de fora, Yasmin Santos (2019) entra em cena escrevendo de dentro da ferida. Jornalista negra, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela combina relato autobiográfico com uma pesquisa com 47 profissionais negros que atuaram em veículos impressos de diferentes regiões e gerações. O que aparece nas respostas é um padrão que atravessa décadas: poucos negros na redação, quase nenhum na chefia e muitos carregando sozinhos a tarefa de “resolver” a ausência histórica de diversidade nas redações.

Yasmin mostra como esses profissionais são empurrados para uma posição incômoda: ao mesmo tempo em que sentem a responsabilidade de preencher uma lacuna, contando histórias de pessoas negras com dignidade, complexidade, ética e sensibilidade, também são reduzidos a uma espécie de “setorista de negritude”, ou “wikipreto”: o jornalista convocado sempre que a pauta é sobre racismo, mas frequentemente desacreditado quando quer falar de qualquer outra temática. Nesse enquadramento, a cor da pele vira fronteira narrativa e também uma máscara de silenciamento: você pode falar, desde que fale só disso.

A autora também descreve o impacto psicológico dessa solidão: ser o único corpo negro na sala, o único rosto preto na foto da equipe, o único a perceber o incômodo do embranquecimento. Cerca de 63% dos profissionais entrevistados relatam sofrimento psíquico associado à sensação de não pertencimento e à cobrança permanente para serem “geniais” e não cometerem erros. Em um ambiente em que brancos podem ser apenas medianos, jornalistas negros sentem que precisam ser impecáveis o tempo todo – uma lógica que ecoa o racismo estrutural discutido por Munanga, Bento e outros autores.

Ao discutir a ausência de políticas claras de diversidade e a concentração de brancos em cargos de decisão, Yasmin Santos (2019) reforça a tese de que a representatividade não se resolve com a presença de “um negro na foto”, mas com transformação estrutural: quem entra precisa também poder debater, editar, pautar e dizer “não” a narrativas que reafirmam padrões preconceituosos.

3. Metodologia:

Este paper segue uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, porque compreender as desigualdades no jornalismo exige mais do que números: exige ouvir quem vive essa realidade na pele, no sangue e no suor do dia a dia.

O principal instrumento de pesquisa foi a realização de entrevistas semiestruturadas com três perfis de jornalistas negros em diferentes momentos da carreira: uma estudante, um recém-formado em início de inserção profissional e uma jornalista já atuante no mercado. A seleção dos participantes considerou autodeclaração racial, formação em Jornalismo e vivências que permitissem observar a trajetória profissional negra em seu percurso mais amplo – da universidade à redação.

O tratamento dos dados foi feito por análise temática, conectando as falas às categorias analíticas que estruturam este trabalho: representatividade, identidade, racismo estrutural e desigualdades no mercado de trabalho. Assim, o que emerge aqui não são “opiniões individuais”, mas expressões de uma experiência coletiva ainda atravessada pela exclusão social.

Todos os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa e autorizaram o uso de seus nomes e falas. Quando solicitado, o anonimato foi garantido, respeitando princípios éticos fundamentais da pesquisa em Comunicação.

4. Análise e discussão:

4.1 Percurso formativo e o acesso à profissão:

Antes mesmo de pisar numa redação, estudantes negros já carregam nos ombros a sensação de não-pertencimento. A universidade – espaço que deveria ser a porta de entrada para o trabalho jornalístico – ainda é um território onde a branquitude reina como norma. Somos a exceção que precisa explicar sua própria presença nesses espaços.

Lívia Goulart traduz esse início atravessado por solidão e tensão racial. Quando entrou no curso de Jornalismo da UFSC, ela era a única estudante negra em uma turma com mais de trinta pessoas. Nas palavras dela, isso faz a gente duvidar do próprio direito de existir ali. “Era muito ruim no início […] olhar para o lado e não ver nenhum semelhante. Tive dias de angústias muito ruins!”

Esse primeiro estranhamento é também estruturante: não tem a ver com “timidez”, mas com um sistema que sempre nos empurra para fora, mesmo quando finalmente conseguimos escancarar as portas.

As cotas raciais são um marco inegociável. Elas abriram portas antes mantidas por fechaduras racistas, transformando trajetórias que pareciam predestinadas ao silêncio. Mas, como lembra Lívia, acessar não significa permanecer. A universidade ainda exige da pessoa negra uma performance de sobrevivência constante: ocupamos o espaço, mas o espaço e as pessoas nem sempre nos acolhem de volta.

Outro ponto que emerge é o medo do mercado profissional, receio esse que nasce logo nas primeiras fases de graduação. Lívia já previu o risco de ser reduzida a “setorista de negritude”, expressão que ela recupera de Yasmin Santos. A lógica é conhecida: contratam jornalistas negros pela narrativa da inclusão, mas, quando chega a hora da prática, confinam suas pautas ao sofrimento ou à denúncia racial. “Representatividade” vira vitrine, não mudança social de verdade.

Mesmo assim, há força na resposta. Há desejo de futuro. Lívia se vê como alguém que pode mexer com os ciclos de invisibilização no mundo, contar histórias que não cabiam antes no enquadramento estreito do jornalismo tradicional. E ela sabe que a sua identidade racial não é obstáculo, mas uma lente que o jornalismo brasileiro sempre recusou usar. Como ela afirma, “a minha identidade racial possibilita que eu veja problemas que a pessoa branca não vai ver […] é por isso que é importante que estejamos lá reivindicando nosso lugar por direito.”

A juventude negra que chega às universidades não vem para ocupar cadeira: vem para exigir uma narrativa jornalística que não naturalize desigualdades e que enxergue o que a branquitude insiste em ignorar. Mas, para isso, a universidade precisa deixar de ser um lugar onde nós nos sentimos convidados temporários e começar a nos reconhecer como sujeitos centrais do fazer jornalístico. Porque o jornalismo, sobretudo num país como o nosso, não pode ser narrado apenas pela perspectiva de quem sempre esteve no topo da primeira página.

4.2 Inserção e obstáculos no mercado jornalístico: a diferença (ou não) que o tempo de mercado faz:

Se na universidade o sentimento é de solidão, ao entrar no mercado a realidade pode se tornar ainda mais rígida e amarga: ali, a regra é provar o tempo inteiro que se merece estar naquele ambiente que já é hostil por natureza. É o que aparece na fala de Carlos Augusto Venâncio, recém-formado, quando relata que, nas redações onde passou, se havia três profissionais negros, era muito. E que, mesmo estando ali por formação e mérito, precisava trabalhar dobrado, ultrapassar horários, enquanto colegas brancos navegavam com o privilégio do mínimo esforço.

Essa necessidade de performar excelência o tempo todo é uma das faces mais cruéis do racismo institucional: não basta ser bom – é preciso ser perfeito. Ainda assim, a resposta que se recebe pode vir em forma de sabotagem. Carlos narra piadas preconceituosas, aquilo que é chamado de “violência micro” que ninguém quer assumir como racismo, mas que atravessa o corpo, o psicológico e o trabalho, reduzindo rendimento e, muitas vezes, silenciando sonhos.

E quando o assunto é o tipo de cobertura, a limitação retorna fantasiada de elogio: o jornalista negro é chamado sempre para falar sobre periferias, esportes comunitários e violência racial. Como se as nossas competências existissem apenas dentro desse cercadinho. O estereótipo define a pauta antes mesmo do profissional. O medo de ser “setorista de negritude”, que Lívia já antecipava, encontra aqui seu cenário real. Becker & Figaro (2021) mostram que essa concentração em funções invisibilizadas e longe da decisão não é acaso: é um sintoma de uma estrutura racializada, onde pessoas negras até entram, mas não encontram abertura para ascender profissionalmente.

Quando olhamos para quem está há mais tempo no mercado jornalístico, como Catarina Duarte, percebemos que houve avanços, mas que eles carregam limites muito claros. Catarina hoje trabalha em um veículo independente onde a maioria da equipe é negra e onde discutir raça faz parte da pauta cotidiana, e não de uma exceção. Ela reconhece que isso não é o retrato do jornalismo brasileiro e que os principais meios de comunicação ainda têm a exclusão escrita em letras miúdas nos contratos de emprego, metaforicamente falando.

Para ela, há mais repórteres e apresentadoras negras hoje do que há dez ou vinte anos atrás, resultado da pressão dos movimentos negros e também do constrangimento público: é feio demais ter uma redação só de homens brancos e cisheteronormativos.

Porém, essa representatividade surge sem poder e sem indicação. Como ela afirma, não basta “ocupar o cargo mais raso, é preciso chegar aos lugares que decidem o que é notícia. E isso continua interditado”.

Se uma editora negra da Folha precisa pedir por “algum espaço factual” para falar da Marcha das Mulheres Negras, é sinal de que a mudança ainda não chegou ao que realmente importa: a transformação do modo como as narrativas são contadas.

No paralelo geracional, o que se vê? A história se repete, mas com uma maquiagem mais permanente.

GeraçãoO que mudou?O que segue igual?
Lívia (estudante de jornalismo) e Carlos (recém-formado)Maior acesso ao ensino superior (cotas); redes de contato acadêmicas; discursos corporativos de diversidade.Racismo explícito no dia a dia (piadas); precarização; confinamento temático das pautas.
Profissionais como CatarinaExistência de veículos negros independentes; maior presença simbólica (ex: Dia Nacional da Consciência Negra).Falta de pessoas negras em cargos de poder; dificuldades de propor pautas raciais humanas em grandes redações; “teto racial” em constante crescimento.

O jornalismo hoje parece ter aprendido a encher os olhos de diversidade, mas continua mantendo a branquitude atrás das câmeras, na chefia, na tomada de decisões. Becker & Figaro (2021) apontam essa contradição: “Mais acesso, poucas oportunidades.”

Eu diria que conseguimos entrar pela porta da frente, mas ainda tentam nos empurrar para os bastidores. E se há algo que Carlos e Catarina deixam claro é que ninguém aqui quer só entrar: queremos ocupar, transformar, discutir decisões e contar as histórias do jeitinho que sonhamos em ver na TV na infância. Porque, no fim, o jornalismo brasileiro não vai mudar só com a nossa imagem na tela. Ele muda quando nossas vozes e visões também comandam as pautas.

O que Carlos e Catarina relatam não é um desvio de rota, mas a confirmação de um padrão. A pesquisa de Yasmin Santos (2019) com 47 jornalistas negros mostra o mesmo cenário: redações majoritariamente brancas, quase nenhum chefe negro, racismo que aparece em piadinhas, censura, convites “naturalizados” para que o profissional abandone o sonho da reportagem e migre para áreas mais nichadas. A expressão que ela usa – “setorista de negritude” – resume bem o medo de Lívia, a experiência concreta de Carlos e a análise crítica de Catarina: contratam o corpo negro, mas tentam confinar o que ele pode (ou não) dizer.

Quando coloco as falas deles lado a lado com Becker & Figaro (2021), Hamermüller (2018), Vieira & Silva (2014) e Yasmin Santos (2019), a conclusão é dura e, ao mesmo tempo, muito nítida: não faltam jornalistas negros formados, nem vontade de contar o Brasil por outros ângulos. O que falta é um campo profissional que aceite abrir mão do controle simbólico da narrativa. E enquanto isso não acontecer, seguiremos vendo uma cena esgotante e repetitiva: mais acesso, poucas oportunidades – e muitos de nós tentando não adoecer no meio do caminho.

5. Conclusão:

Ao longo deste paper ficou evidente que a exclusão racial no jornalismo brasileiro não é um descuido, nem uma mera coincidência: é uma estrutura hierárquica classista. Ela começa nas universidades, quando ainda somos poucos e constantemente lembrados de que aquele espaço não foi pensado para nós. Continua nas redações, onde a chegada já exige resistência e a permanência, vista como um quase heroísmo. E se manifesta sobretudo nos lugares onde as decisões são tomadas.

A baixa representatividade de jornalistas negros opera como uma engrenagem que limita perspectivas, empobrece narrativas e reforça estereótipos. Quando apenas um tipo de pessoa é autorizada a contar as histórias do país, o resultado é um jornalismo míope, incapaz de ver a desigualdade e a violência (muitas vezes silenciosa) que atravessam a vida da maioria da população brasileira.

Por outro lado, as vozes negras que conseguem romper essas barreiras mostram o quanto a nossa presença amplia o horizonte da informação. Porque não é só sobre ocupar uma cadeira: é sobre mudar o ângulo da câmera, o que é pauta, quem tem direito de ser ouvido, e como essas histórias são cuidadas. É sobre fazer jornalismo com responsabilidade racial, com sensibilidade e compromisso ético, entendendo que informar também é disputar narrativas.

Mas para que essa mudança seja mais do que exceção, é preciso ação concreta: mais políticas de inclusão nas empresas de comunicação (cotas e formação crítica contínua nas universidades), apoio a coletivos e veículos independentes de jornalistas negros e promoções de negros a cargos de liderança. O jornalismo só cumpre seu papel democrático quando reflete a sociedade que informa. E o Brasil é negro. Portanto, o jornalismo brasileiro também precisa ser. Não como concessão ou vitrine, mas como reconhecimento legítimo de que nossas vivências importam.

Porque quando jovens como Lívia e jornalistas experientes como Carlos e Catarina seguem insistindo em ocupar essas redações, eles não estão apenas buscando emprego: estão reconstruindo o modo como este país foi construído. E isso, sim, pode mudar alguma coisa no mundo, exatamente como a gente sempre quis e merece.

As trajetórias de Lívia, Carlos e Catarina dialogam diretamente com o que Yasmin Santos (2019) encontra em sua pesquisa com jornalistas negros: solidão, cobrança, enquadramento em nichos temáticos e ausência em cargos de decisão. Não é coincidência; é uma estrutura precarizada.

A diversidade no jornalismo não pode ser uma peça decorativa da vitrine de responsabilidade social das empresas. Se é para nos colocar no teleprompter apenas em novembro, melhor nem ligar a câmera. Representatividade que não muda quem decide a pauta é só outra forma de silenciamento, agora com iluminação, roteiro e edição profissional. Democratizar as redações é encarar que não dá mais para um país tão preto continuar sendo narrado quase só por quem nunca precisou temer uma batida policial ou um currículo recusado pelo “perfil da vaga”. O jornalismo brasileiro gosta de se dizer guardião da democracia, mas que democracia é essa onde só alguns têm o privilégio de contar a história? Quando pessoas negras assumem o comando da narrativa, não estamos “ocupando espaço”, estamos devolvendo o Brasil para ele mesmo. E isso, inevitavelmente, incomoda. Que bom. Porque a verdade, quando finalmente aparece com a nossa cara, nunca chega em tom neutro, chega para desarrumar o que sempre esteve arrumado demais para os mesmos de sempre.

6. Referências bibliográficas:

  • BECKER, B.; FIGARO, R. (2021). Mais acesso, poucas oportunidades: o perfil de jornalistas negros e negras após uma década de pesquisas sobre o mundo do trabalho. Texto: O trabalho de jornalistas no Brasil: desigualdades, identidades e precariedades.
  • HAMERMÜLLER, A. (2018). A cor na televisão: uma análise da representatividade racial entre os repórteres e apresentadores da Rede Globo e o papel televisivo na construção da identidade negra.
  • ORWELL, G. As I Please (1943-1947). Tribune.
  • SANTOS, Yasmin. Letra preta: os negros na imprensa brasileira. Revista Piauí, ed. 157, out. 2019. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/letra-preta/.
  • VIEIRA, G.; SILVA, M. (2014). A identidade do negro e a questão das cotas raciais na mídia brasileira e na mídia local.
  • ENTREVISTAS: 1. GOULART, Lívia. Entrevista concedida a Ariéll Cristóvão em 2025. Estudante negra de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); 2. VENÂNCIO, Carlos Augusto. Entrevista concedida a Ariéll Cristóvão em 2025. Jornalista negro recém-formado; 3. DUARTE, Catarina. Entrevista concedida a Ariéll Cristóvão em 2025. Jornalista atuante no mercado de trabalho.

Florianópolis, 10/12/2025 – Trabalho (paper dissertativo-argumentativo), produzido para a disciplina: Teoria do jornalismo, ministrada pelo Prof. Samuel Pantoja Lima (4ª Fase, Jornalismo-UFSC).

Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras.”

Cada palavra e ideia aqui compartilhada são frutos de minha autoria e dedicação. O plágio é crime, conforme previsto no artigo 5º, inciso XXVII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei 9.610/98, e pode resultar em sanções legais. Respeitar o trabalho alheio é essencial para a construção de um ambiente de aprendizagem, criatividade e respeito mútuo.

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