Reportagem perfil: Cada um corre no seu tempo, poste a poste
Tábata Anacleto encontrou no esporte, no apoio da família e na escuta do próprio corpo um caminho para voltar a viver, quilômetro a quilômetro

Tábata corre devagar pelo loteamento ao lado de sua casa. O corpo já está marcado pelo vermelho do suor antes mesmo de completar os primeiros cem metros, como se lembrasse, a cada passo, de toda a história que já carregou até ali. Ela não é a mais rápida do grupo. Nunca foi. E hoje isso não a incomoda mais.
O filho Rodrigo, 18, segue alguns metros à frente, concentrado no próprio fôlego. O marido Eder, 42, vem logo atrás, constante. A filha Ágata, 11, acompanha de bicicleta e, vez ou outra, solta frases motivadoras. “Levanta a cabeça, mamãe. Eu, o pai e o mano estamos aqui contigo. A gente vai conseguir junto.” Entre um passo e outro, não há pressa. Há respiração pesada, silêncio e um acordo invisível: ninguém precisa provar nada para ninguém.
No pulso, o relógio registra o tempo, a distância e os batimentos cardíacos. Mas não dita o ritmo da corrida. Quem dita o ritmo é o corpo, e a história que ele sustenta. Tábata demorou a aprender isso. Passou anos tentando acompanhar o ritmo dos outros, ignorando os próprios limites, acreditando que ficar para trás era falhar. “Hoje eu vejo a vida de uma forma bem diferente do que eu via. Não tinha expectativa nenhuma de futuro, antes eu sobrevivia, hoje eu vivo”, relata.
Correr, para ela, deixou de ser sobre a linha de chegada. É sobre escutar a própria mente. Sobre respeitar a pausa quando as pernas pedem descanso. Sobre entender que cada corpo tem um tempo, e que o dela, por muito tempo, nunca foi respeitado. Hoje, quando corre, Tábata não foge da pista. Corre para se encontrar. “Quando eu corro do lado dela, eu penso que ela é uma inspiração. Pra mim e pros nossos filhos”, conta Eder.
Aos 37 anos, Tábata Cristina Anacleto Alves vive dias corridos. Faz faxinas particulares, treina quando dá, frequenta as aulas da faculdade de Nutrição, sustenta a rotina de uma casa que nunca para e cuida de seus três cãezinhos (Cristal, Rock e Tokyo). Tábata é uma corredora em processo, definição que ela mesma escolheu para não fechar a história antes do tempo. Não corre para vencer ninguém. Não corre por pódio, medalhas e troféus. Corre para continuar de pé. Corre para continuar sorrindo.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que a vida tinha outro ritmo, mais pesado, mais conflitante. “A corrida salvou a minha vida”, diz. A frase não vem como slogan enfeitado, mas como uma constatação. Durante anos, os dias eram cinza, se repetiram entre trabalho, exaustão e a sensação constante de estar se perdendo aos poucos. Viver virou sinônimo de cumprir tarefas. Cuidar de si, era um luxo distante. Hoje, quando se fala em alimentação, corpo e mente, Tábata não fala em obrigação. Fala em escolha.
A corrida entrou nesse processo sem promessas grandiosas. Não veio para salvar, nem para transformar tudo de uma vez em um passe de mágica. Veio devagar, no passo curto, acompanhada da família e de uma decisão silenciosa, mas necessária: parar de se comparar. Aprender a respeitar o próprio tempo. Não é uma história de superação fantasiosa. É uma história de permanência. De alguém que segue, mesmo cansada, porque entendeu que estar bem consigo mesma é o ponto de partida de qualquer outra coisa. “Eu entendi que se eu não estiver bem, eu não consigo acolher ninguém de verdade”, comenta.
Tábata nasceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, e passou a primeira parte da infância em um bairro marcado pela criminalidade. Brincar na rua não era opção. O medo vinha antes da curiosidade. A casa funcionava como abrigo, e também como obstáculo. Filha única, cresceu sob uma rotina de proteção frequente, construída pelos pais depois da perda de um filho ainda bebê, oito anos antes dela nascer.
Enquanto outras crianças ocupavam a rua, Tábata crescia entre adultos. O pai era dono de um ginásio esportivo, e foi ali que ela passou boa parte da infância: assistindo jogos, observando o movimento de longe. O esporte estava presente, mas ninguém a chamava para entrar em quadra. Ela assistia tudo da arquibancada.
Esse lugar moldou cedo a relação com o seu corpo. Não havia espaço para errar, para tentar sem saber, para ser pior que alguém. O medo de falhar virou regra silenciosa. Na escola, a educação-física não era descoberta, era uma exposição desnecessária. O suor incomodava, a comparação com os colegas a paralisava. Sempre que podia, ela escolhia trabalhos escritos no lugar da prática. Era mais seguro não fazer do que tentar e falhar. Essa relação cautelosa com o corpo atravessaria a próxima mudança importante da vida dela.
A ida da família para Santa Catarina quando ela tinha nove anos, não foi apenas geográfica. Foi uma tentativa de recomeço. Em Porto Alegre, a violência do bairro não permitia planos longos. A decisão de mudar veio como estratégia de proteção. Em Biguaçu, a cerca de 28 quilômetros da capital Florianópolis, os pais compraram um terreno e construíram a própria casa com as próprias mãos.
Tábata ajudava como podia. Nas folgas, carregava saco de cimento, participando da obra como quem aprende cedo que o corpo também é ferramenta de sobrevivência. “Aprendi muito sobre responsabilidade com dinheiro naquela época”, lembra. A vida, porém, já não tinha o mesmo conforto financeiro de antes. No estado gaúcho, a família era dona de um ginásio, negócio esse que precisou ser vendido para viabilizar a mudança. Em Santa Catarina, a lógica era outra: a mãe passou a trabalhar como cozinheira, o pai vendia livros. O dinheiro era contado.
Foi em Biguaçu que Tábata entrou na adolescência tentando aprender um novo ritmo: outra escola, outras regras, outras expectativas. Nada encaixava com facilidade. Ainda assim, o corpo encontrou, por um tempo, um respiro. A dança surgiu como espaço de lazer. Depois, a natação. “A dança, pra mim, era surreal de linda. Eu adorava dançar”, lembra.
Mas o movimento voltou a ser interrompido. Quando a mãe não permitiu que ela se apresentasse em uma mostra de dança, algo se fechou dentro dela. O que era alegria virou bloqueio. Mais tarde, a natação também ficou pelo caminho, não por falta de vontade, mas por falta de dinheiro. Para Tábata, o esporte nunca foi sinônimo de prazer. Ao longo da infância e da adolescência, o movimento do corpo passou a se associar a constrangimento e frustração. Não era o corpo que falhava, era o contexto que ensinava, repetidas vezes, que se expor doía.
Sem perceber, Tábata cresceu acreditando que o corpo precisava caber em um padrão. Observar era mais seguro do que entrar em cena. Um aprendizado solitário, atravessado por mudanças, perdas e contenções, que só muitos anos depois começaria a ser revisto, com cuidado, escuta e atenção profissional.
No primeiro ano do ensino médio, veio a reprovação. Um tropeço que doeu mais do que parecia, sobretudo para alguém que sempre teve medo de errar. Foi nesse mesmo período que o namoro com Eder, vizinho de infância da casa da frente, deixou de ser apenas companhia e ganhou peso no futuro. O primeiro namorado, se tornaria o companheiro mais fiel para a vida toda. Aos 18 anos, ainda no ensino médio, Tábata engravidou.
A gravidez marcou uma ruptura definitiva naquela fase de sua vida. Ela saiu da casa dos pais e passou a morar com Eder, no mesmo terreno da sogra. Não foi só uma consequência da gestação. Foi também um movimento de saída da superproteção, para furar a bolha, do lugar onde tudo era cuidado demais. Assumir a própria vida veio junto com muitas responsabilidades, e sem tempo para ensaio.
Com o nascimento do primeiro filho, Rodrigo, em 2007, uma nova etapa se impôs. Ainda muito jovens, Tábata e Eder precisaram aprender rápido a dividir contas, organizar uma casa e criar um bebê. Os estudos ficaram pelo caminho naquele momento. Ela retomaria mais tarde, concluindo o ensino médio pelo supletivo, enquanto a vida seguia exigindo escolhas práticas, imediatas, quase sempre sem margem para erro.

A família começou ali, sem idealizações. Construída no improviso, no cansaço, no aprendizado diário de fazer dar certo. Tijolo por tijolo. Não foi uma trajetória linear, nem simples. Com o passar dos anos, veio o nascimento da filha mais nova, Ágata, em 2014, ampliando a casa, as responsabilidades e também o amor. Mas foi ali, naquela rotina apertada e intensa, que se formou a base de tudo o que viria depois: a mulher, a mãe, a trabalhadora e, muitos anos mais tarde, a corredora que aprenderia que cada trajetória tem o seu próprio tempo e que, de certa forma, ela sempre viveu o dela intensamente.
Em 2019, Tábata se mudou com a família para Antônio Carlos, cidade vizinha de Biguaçu. Foi ali que o corpo começou a dar sinais mais claros de cansaço. Naquele momento, ela pesava 86 quilos, 22 quilos a mais do que pesa hoje. O número ajuda a situar a fase, mas não explica o peso real das coisas. O que estava pesado era a rotina e o corpo ia junto.
Em Antônio Carlos, Tábata passou a trabalhar como faxineira na mesma escola onde havia estudado quando mais nova, E.E.B. Altamiro Guimarães. O espaço que um dia foi sala de aula agora era local de trabalho. Os próprios filhos também passaram a estudar ali. A vida parecia dar voltas completas, mas sem tempo para repouso. Nos fins de semana, ela dormia quase o tempo todo. Dormir virou refúgio. Uma forma discreta de desaparecer sem precisar ir embora. “Ela queria se esconder do mundo, estava muito depressiva, só usava roupa preta”, conta Rodrigo.
O casamento atravessava um desgaste silencioso. Os momentos de carinho eram raros, as brigas se repetiam, quase sempre pelos mesmos motivos. Dentro de casa, o ar era denso. “Eu estava em frangalhos”, lembra. Fora dela, ninguém parecia notar. Tábata continuava funcionando: trabalhava, sorria, cumpria horários, respondia o que era solicitado. Vestia uma espécie de máscara de normalidade que escondia o cansaço acumulado.
A comida ocupou um lugar central nesse período. Não como descuido, mas como afeto. Era em volta da mesa que a casa encontrava algum tipo de equilíbrio. Cozinhar virou gesto de cuidado, tentativa de manter tudo unido quando quase nada parecia se sustentar. Comer era, muitas vezes, o único momento de trégua. O único instante em que o silêncio não machucava.
Ela sabia que estava diferente. Mais irritada. Sem paciência. Distante de si mesma. Mas não dizia. Não nomeava o problema. Não pedia ajuda. “Eu tinha medo de ser taxada de coitadinha de novo”, lembra. A tristeza era diária, baixa, quase invisível, e justamente por isso perigosa. Não houve um colapso. Não houve cena. Apenas a sensação constante de estar sobrevivendo, não vivendo.
Foi desse ponto, sem grandes anúncios, que nasceu a necessidade de mudança. Não por estética. Não por cobrança externa. Mas porque, em algum momento, Tábata entendeu que daquele jeito não dava mais. Continuar ali significava seguir se apagando. E, mesmo sem saber exatamente como, ela decidiu que precisava voltar a existir. “Foi a virada de chave mais importante que dei”, ressalta.

Rodrigo, o filho mais velho, começou antes. Ainda menino, já corria bem. Chamava atenção. Tinha professores dizendo que ele levava jeito, que valia a pena investir. Na época, Tábata não ouviu. A vida estava pesada demais para captar os sinais. Quando tudo pesa, o olhar também perde o foco.
Foi por meio de uma vizinha que ela conheceu o circuito do Bruno Gauchinho. Foi até lá. Não para correr, mas para tentar encontrar esperança. Fazia os exercícios, parava, voltava. O corpo não respondia. A cabeça, menos ainda. Havia um cansaço que não vinha só das pernas.
Foi ali que surgiu a possibilidade de Rodrigo também participar. Um convite para um treino seletivo com Guilherme Madeira, Presidente da Associação Esportiva Istepô Atletismo. Ele foi. Gostou. Voltou. Continuou. E, diferente de tantas outras coisas que experimentou, algo acendeu em seu peito naquele momento. O brilho no olho do filho apareceu. A corrida fazia sentido para ele. “Ver ele se apaixonar pelo que fazia, me inspirou a voltar enxergar cor no mundo”, explica.
Tábata ficou do lado de fora da pista por um tempo. Acordava de madrugada para levá-lo às provas, esperava no frio, observava de longe. Viu o esforço e o cansaço do filho. Mas viu também algo que ela própria não sentia havia muito tempo: vontade. Aquela vontade pura, sem obrigação.
Quando tentou, foi do único jeito que sabia. Corria de um poste ao outro ofegante. Depois caminhava. Voltava a correr. Parava de novo. Não havia um plano a seguir. Não havia meta. Havia medo. Medo de não conseguir. Medo de ser a pior. Um medo antigo, herdado da infância, das aulas de educação-física evitadas, do corpo sempre exposto ao julgamento alheio.
Foi o filho Rodrigo quem insistiu primeiro. “Vai no teu tempo, mãe. Sem cobrança. Sem se comparar com as outras pessoas”, ele dizia. O ritmo era dela. E, pela primeira vez, isso parecia permitido.
Nos treinos, Tábata percebeu algo que nunca tinha vivido no esporte: ninguém precisava chegar junto. Alguns corriam rápido. Outros caminhavam. Outros alternavam. Não havia um jeito certo de praticar aquele esporte. Havia diversos jeitos possíveis para escolher e se adaptar. Aos poucos, ela entendeu que não precisava provar nada para ninguém. Só continuar. “Quando eu vi que tinha gente de todos os tipos correndo, eu pensei que ali poderia ser o meu lugar também”, relata.
A corrida entrou assim. Sem promessa de transformação. Sem discurso vazio. Entrou pelos laços familiares, pelo passo curto entre um poste e outro. E, com ela, começou a se formar uma ideia que atravessaria toda a sua trajetória no atletismo: cada um corre no seu tempo, e o dela, finalmente, podia ser respeitado. “Eu me apaixonei pelo esporte por causa da minha família”, conta.

Nada aconteceu de uma vez. E nada foi definitivo. Tábata aprendeu rápido que a corrida, como a vida, não é uma linha reta. Houve períodos de avanço e períodos de recuo. Altos e baixos. Meses em que o corpo respondia, o peso diminuía, a rotina se encaixava. E outros em que tudo desandava: ela parava de correr, engordava de novo, se sentia cansada, frustrada, à beira de desistir.
O trabalho sempre pesou. Fazer faxina em até dez casas por semana exige um corpo que já chega ao limite antes mesmo do treino. Houve fases em que ela dobrou a carga de trabalho, inclusive aos fins de semana, para sustentar a casa. Em um desses períodos, Eder sofreu um acidente no trabalho e ficou afastado, aguardando os trâmites da perícia, um processo lento, que desorganizou ainda mais a rotina da família. Nessas épocas, a corrida ficava em segundo plano. Às vezes, não havia energia nem para cozinhar.
Foi nesse contexto que a alimentação deixou de ser apenas um problema e passou a integrar o cuidado. Com o acompanhamento da nutricionista Mayara Guesser, amiga próxima e presença constante na sua rotina de diarista, Tábata começou a reorganizar a relação com a comida. As marmitas surgiram como estratégia, não como uma balança estética. Cozinhar uma vez por semana era a forma possível de manter alguma regularidade em meio à rotina exaustiva. Quando funcionava, funcionava para todos: marido e filhos. Quando não funcionava, ela aprendia, aos poucos, a não transformar a tentativa em culpa, nem o cansaço em desistência.
Houve recaídas. Houve meses sem treino. Houve ganho de peso. Houve culpa na frente do espelho. A diferença é que, dessa vez, ela sabia como voltar. Recalcular a rota deixou de ser sinônimo de fracasso e passou a ser parte do caminho. Não como exceção, mas como regra. “Hoje eu passo mais tempo em casa, mas quem prepara a comida é o meu filho, eles são muito independentes”, conta.
A fé atravessou esse processo em silêncio. Não como promessa de cura, nem como solução rápida. A espiritualidade apareceu quando o corpo já não respondia, quando o cansaço era maior do que a vontade, quando surgia a dúvida sobre continuar. Era a mesma fé que havia sustentado Tábata anos antes, durante a internação da filha. Hoje, esse cuidado transborda em gesto: ela atua como voluntária em um hospital infantil de Florianópolis, onde leva livros para colorir e dança com as crianças. “Eu precisava me sentir bem comigo mesma primeiro, para depois conseguir retribuir o carinho que recebi na época, isso só foi possível por causa da corrida”, relata.
A caminhada da fé, entre Antônio Carlos e Angelina, foi outro marco importante para Tábata. Mais de 40 quilômetros percorridos a pé, com a família e amigos, movidos menos pelo físico e mais pelo propósito. Ali, a dor não se mede em ritmo ou tempo. Ela se atravessa com oração, silêncio e persistência. Para Tábata, caminhar foi também revisitar a própria história e agradecer por ela ainda estar em movimento.
Nada foi mágico. Não houve um dia em que ela acordou “pronta”. O que existiu foi persistência e autodescoberta. Voltar quando dava. Parar quando era necessário. Seguir mesmo sem garantia de resultado. O corpo mudou, sim, mas mudou porque foi cuidado. Nunca porque foi cobrado. O que existe aqui é processo. Com falhas. Com interrupções. Com retomadas. Do jeito que a vida costuma ser quando ninguém está olhando.
A primeira prova não trouxe o pódio. Trouxe algo maior: a certeza de que era possível. Em novembro de 2023, em uma corrida-treino de 5km, em Antônio Carlos, organizada por Bruno Gauchinho, Tábata levou 38 minutos para cruzar a linha de chegada. No meio da prova, o cansaço veio. A cabeça mandou parar. Foi o filho quem voltou para buscá-la e o marido corria ao lado. E ela chegou à linha de chegada.
A medalha não representava velocidade nem colocação. Representava resiliência. Era a prova concreta de que aquele corpo, o mesmo que por anos foi motivo de vergonha, também era capaz de sustentar esforço, disciplina e continuidade. “Eu sempre digo que se estivesse na pele dela, eu não conseguiria fazer o que ela fez com tanta coragem e determinação”, ressalta Eder.
Outras conquistas aconteceram com o passar do tempo. Em março de 2025, em uma corrida no contorno viário, Tábata correu seus primeiros 16 quilômetros, em 1 hora e 46 minutos, acompanhada pelo marido, enquanto o filho dava suporte com água dirigindo durante o percurso. Não havia arquibancada. Não havia aplausos. Mas havia orgulho. Um orgulho que ela havia construído poste a poste, quilômetro a quilômetro, e que ainda hoje ela se lembra com um sorriso corado.
O maior sonho, no entanto, ainda está adiante: correr uma maratona de 42 quilômetros em Florianópolis. Não há data definida. Não há pressa para cumprir essa meta. Houve um tempo em que ela esteve perto de se sentir pronta. Depois vieram os altos e baixos, as pausas, o retorno à estaca zero do processo. E depois de muita batalha, finalmente estava tudo bem, Tábata aprendeu a reconhecer seus limites.

A maratona não é uma meta isolada. É a luz do sol no horizonte que transmite esperança. Um lembrete constante de que o caminho importa tanto quanto a chegada. Hoje, Tábata voltou a treinar. Devagar. No seu ritmo. Ajustando o passo, reconstruindo o corpo, aprendendo a confiar em seu coração. “Voltei a vestir roupas coloridas, antes eu não conseguia levantar da cama, agora todo dia quero fazer algo novo, correr em lugares que nunca fui”, conta.
Ela ainda está em construção. Como corredora. Como mulher. Como alguém que entendeu que correr não é sobre chegar antes dos outros, é sobre continuar, mesmo quando a respiração falha.
Tábata não corre mais para provar nada a ninguém. Não corre para compensar o passado, nem para apagar versões antigas de si mesma. Corre porque aprendeu, com o tempo, que o corpo também é lugar de escuta. E que respeitar o próprio ritmo é uma forma de permanecer inteira no caminho. “Aprendi a apreciar minha solitude, me sinto livre de tudo aquilo que me arrastava para baixo. É lindo ver os comentários de tanta gente me apoiando nos meus posts”, relata.
A maratona de 42 quilômetros ainda está distante. Talvez aconteça. Talvez não. Mas o sonho segue ali, firme, não como uma cobrança incômoda, e sim como uma das muitas possíveis direções de viver. “Talvez a maior garra dela não esteja nas longas distâncias, mas lá no começo, quando ela saiu da zona de conforto e acordava de madrugada para correr sozinha, mesmo em dia de chuva. Hoje, ela é referência para a família e para muitas outras pessoas”, relata o treinador, Guilherme Madeira.
Ao redor, a família sustenta o passo. Às vezes corre junto. Às vezes espera. Às vezes puxa pela mão quando o cansaço pesa mais do que as pernas. É nessa constância compartilhada que Tábata encontra força para continuar vivendo, mesmo quando precisa parar e recomeçar. “A mãe não desiste fácil e isso me inspira a continuar correndo. Ela é uma mulher muito forte, uma guerreira”, observa Rodrigo.
Hoje, ela entende que cada pessoa corre no seu tempo. E, pela primeira vez, ela aprendeu a respeitar o dela. Tábata segue correndo. Sem linha de chegada definida. Mas em constante movimento. “Nunca é tarde para começar. Eu só precisava dar o primeiro passo. A corrida me trouxe paz de espírito. Quero deixar o legado de correr atrás dos sonhos para os meus filhos”, afirma.
Florianópolis, 12/12/2025 – Trabalho (reportagem perfil), produzido para a disciplina: Linguagem e Texto Jornalístico III, ministrada pela Profª. Maria José Baldessar (4ª Fase, Jornalismo-UFSC).
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