Conto de fadas distópico: Você é o culpado por eu odiar borboletas!

Imagem: Gerada por inteligência artificial (IA) usando ChatGPT para este conto.

Prólogo (Parte 1): Era uma vez…

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de admirar borboletas pela janela do meu quarto, achava que elas carregavam segredos no bater de asas, e que, se eu prestasse atenção o suficiente, talvez alguma delas pousasse na minha mão e sussurrasse o que eu sempre quis escutar: a magia dos contos de fadas é real. 

Mal sabia eu que, um dia, elas se tornariam o símbolo da dor que eu mais gostaria de esquecer.

Se você está lendo isso esperando encontrar um conto de fadas com príncipes montados em cavalos, finais felizes, sapatinhos de cristal que não desaparecem ao badalar da meia-noite, abóboras que viram carruagens elegantes com o tilintar de varinhas de condão e aventuras emocionantes em cima de um tapete voador… eu tenho um conselho para você, caro leitor: pare de ler este conto agora mesmo. Ele não é o que você está procurando.

Vai assistir a uma comédia romântica de Natal, daquelas que prometem um beijo de amor verdadeiro, no meio de uma nevasca, com o casal preso num chalé decorado com luzes pisca-pisca.

Por que você escolheu ler essa história aqui, enquanto podia estar fazendo qualquer outra coisa? Ela não é bonita. Nem romântica. Muito menos encantada.

Ou talvez seja. Mas não do jeito que você imagina.

Eu sei. Você devia estar lavando a louça ou estudando para aquela prova de matemática que já está te assombrando há dias. Mas, em vez disso, escolheu se perder numa história quebrada, talvez porque, no fundo, a gente sempre prefere enfrentar monstros de mentira do que lidar com os dragões da vida real. E tudo bem. Eu também fujo o tempo todo. Sempre que posso. Me escondo em livros de fantasia e romance como quem se enrola num cobertor furado só para não congelar.

Se você já teve o coração esmagado pela chuteira da Nike de um “príncipe encantado” que virou sapo no meio do caminho, saiba: você não está sozinho. Bem-vindo ao meu clube.

Aqui, escrevo a verdade que os finais felizes tentam esconder de você. Aqui, eu quebro espelhos falantes, porque eles só sabem repetir o que o mundo quer ouvir, e nunca aquilo que o coração precisa escutar. Aqui, eu lanço pedras com a minha catapulta de estimação contra os castelos encantados construídos com o sangue e o suor dos excluídos, e também contra os amores que cospem flores cobertas de espinhos. Aqui, você vai ler as minhas lágrimas derramadas neste pedaço de papel.

Meu nome é Mal Yang. Tenho 15 anos. E essa história começou quando um garoto com olhos de tempestade roubou as chaves do meu coração e me trancou dentro de mim mesmo por anos. Sim, você não leu errado.

Quando se tem o coração partido na adolescência pelo garoto dos seus sonhos, não é só drama adolescente, é o fim do mundo. Só que, claro, sem direito aos Power Rangers salvando o teu dia em meio às explosões cinematográficas. Nada disso. É um apocalipse zumbi versão pirateada, com efeitos especiais baratos, onde você é apenas o figurante dramático se afogando no próprio travesseiro de uma cama de solteiro, fingindo respirar enquanto os escombros da “eternidade” desmoronam dentro do seu peito. É como se a Terra girasse ao contrário, é como ser enterrado vivo, é como ser pego de surpresa pela Netflix cancelando as poucas séries boas que ela tem. Só que, nesse caso, a série é você.

Ele se chama Ben Yin.
Ele era o silêncio reencarnado. Eu, o significado por trás da palavra estrondo.
Ele era sombra. Eu, a luz.
Ele, uma avalanche. Eu, um vulcão em erupção.
Ele, abandono. Eu, insistência.

E, de alguma forma, apesar das nossas diferenças gritantes, ele era tudo o que me faltava, e eu, tudo o que ele ainda não estava pronto para ser. Juntos, éramos caos e cura. O sol e a lua tentando sobreviver sob o mesmo céu. Mesmo sendo opostos, nos completávamos como peças de um quebra-cabeça feito para nunca se encaixar totalmente. 

E talvez por isso tenha doído tanto. Talvez seja por isso que é tão difícil esquecer o que aconteceu conosco.

A princesa (Tiana) e o sapo (Naveen) eram os meus pais. Achei que pudesse viver um romance parecido com o deles algum dia. Eu sonhei com isso durante a minha vida toda. Até que descobri que nem todo sapo vira um príncipe… e que alguns usam a máscara de encantado só para te puxar para as profundezas de pântanos mal-assombrados.

Essa é a nossa história. Ou melhor: é a história do que restou do meu coração quando Ben Yin escolheu o medo, e eu precisei aprender a me reinventar com as cinzas que sobraram do nosso amor.

Se ainda assim você quiser continuar lendo… 

Senta. Respira. Toma um copo d’água. E prepara o coração, porque algumas borboletas não vêm para te fazer sentir frio na barriga, pelo menos, não de um jeito bom. Algumas borboletas vêm para te devorar por dentro. Para rasgar o seu estômago, deixando você para trás, sozinho, sangrando no chão, sem esperança de ser resgatado da mais alta torre do reino, apenas com as crises de ansiedade e pânico te cercando, como dementadores leais, famintos, que nunca perdem o caminho de volta até você.

Por sua causa, Ben Yin, quando eu canto, os animais não vêm ao meu encontro. Eles fogem. Se escondem. Você me transformou no vilão dessa história. E quer saber? Tá tudo certo. Eu aceito esse papel, contanto que você pare de partir corações como quem os coleciona em uma estante de troféus de futebol.

Caros leitores, sejam bem-vindos ao mundo dos contos de fadas! E nunca se esqueçam: “Todas as lendas são reais.” – Instrumentos mortais.

  • Mesmo que eu acredite em todas as lendas que carrego no peito, é preciso fazer um aviso: esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com eventos, governos, pessoas, marcas ou tragédias reais é mera coincidência ou foi usada exclusivamente para fins narrativos literários. Nada aqui deve ser interpretado como previsão garantida, acusação formal ou relato factual. Esta história é, acima de tudo, um espelho distorcido, daqueles que, às vezes, revelam verdades escondidas entre sonhos, medos e escolhas. Leia com a mente aberta, mas com a consciência de que você está adentrando um reino onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam não para culpar, mas para inspirar os corações ao redor do mundo. Que as estrelas guiem nossos passos. Que a imaginação nos mantenha livres. E que a esperança seja a última a perecer.

Prólogo (Parte 2): Já chega de cowboys solitários nas montanhas

Os contos de fadas tradicionais nunca contaram histórias sobre príncipes que amam outros príncipes. Mas… e se eles existirem?

E se eles estiverem por aí, escondidos entre as páginas censuradas do livro da vida? E se estiverem esperando, como eu esperei, para ver alguém parecido com eles ganhar o seu “felizes para sempre”, para finalmente saberem que todos temos direito a sonhar e amar? Que os pesadelos só existem porque a sociedade nos força a arrancar nossos corações do peito e jogá-los na lata de lixo mais próxima.

A verdade é que existe um “felizes para sempre” pré-determinado para certos tipos de amor. Mas nunca para todos… Quando o amor acontece entre dois garotos, ou entre duas garotas, ele não ganha uma adaptação cinematográfica com trilha sonora digna do Oscar. Ele vira segredo. Vira tabu. Ou, pior ainda, vira tragédia.

No meu mundo, príncipes não podem amar outros príncipes. Isso é contra a lei. Mas… quem foi que disse que, para amar, a gente precisa de um reino, de uma coroa ou de permissão?

Deixa eu te mostrar o que acontece quando dois garotos tentam atravessar os portões do castelo dos contos de fadas em busca de um final feliz que nunca foi escrito para eles. Em busca do final com que sonharam durante toda a infância.

Porque, se você for como eu, se já amou alguém do mesmo gênero, se já sonhou com beijos debaixo da chuva, com o direito de segurar a mão do garoto que ama sem sentir a nuca formigar sob olhares de nojo, mas só ganhou furacões de ofensas, você já conhece o final que a maioria dessas histórias reserva para pessoas como nós.

  • Brokeback Montain (2005);
  • Orações para Bobby (2009);
  • Holding the Man (2015);
  • Me chame pelo seu nome (2017);
  • Jonas (2018);
  • Boy Erased (2018);
  • Seu nome gravado em mim (2020);
  • Firebird (2021);
  • Close (2022);
  • My Policeman (2022);
  • Companheiros de Viagem (2023);
  • Nuovo Olimpo (2023)...

A lista é longa, dolorida, repetida e nunca acaba (infelizmente), como um disco arranhado que insiste em repetir que não merecemos estar sorrindo naqueles espaços. E cansa. Cansa ter que se contentar sempre com o começo de uma história de amor que nunca chega ao meio. Que nunca tem tempo de florescer.

Já chega de cowboys solitários nas montanhas. Chega de amores interrompidos por balas, por pais, por igrejas, por doenças ou por vergonha. Chega de sermos figurantes nas histórias que nascemos para ser os protagonistas.

Quero ligar a televisão e não precisar escolher entre drama e terror. Quero me sentir representado em histórias como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014); In a Heartbeat (2017); Com Amor, Simon (2018); The Christmas Setup (2020); Um Crush para o Natal (2021); Heartstopper (2022); Vermelho, Branco e Sangue Azul (2023); Young Hearts (2024).

Mas ainda hoje quando a gente finalmente “aparece” nas telas, adivinha só? 

É sempre aquela mesma fanfic reciclada do Wattpad: o garoto loiro padrão, com abdômen de comercial de academia, peito estufado e sorriso Colgate, se apaixonando pelo moreno twink “exótico” que existe só para fazer contraste na capa do pôster. Como se o amor entre dois garotos tivesse que seguir uma paleta Pantone aprovada pela heteronormatividade. Como se as empresas de filmes tivessem um único molde do boneco Ken e só trocassem o tom de pele do namorado. 

Por anos eu comprei essa farsa, engoli essa porcaria com um nó na garganta, acreditei que meu final feliz só teria valor se viesse embalado num príncipe encantado loiro de olhos claros, másculo e inexpressivo montado num cavalo, um Ken humano com menos alma que as estátuas de cera do Museu Madame Tussauds. 

E sabe o que isso fez comigo? Me cegou, como aposto que deve cegar muitas outras pessoas que também cresceram com seus amores sendo invisibilizados tanto nas telas quanto na vida real. Me fez parar de ver beleza nas pessoas reais e em seus corpos reais, na poesia das diferenças, nos sorrisos tortos, nos olhares afeminados, na coragem de existir fora da norma. Fez eu odiar o meu próprio corpo, porque quando deixei de enxergar beleza no outro, deixei também de enxergar beleza em mim. Parei de ver poesia no meu reflexo no espelho, como se cada pequeno traço fosse um erro de fabricação. Fiquei preso num molde tão estreito que quase me perdi tentando caber nele.

Esses dias percebi o quanto esse veneno estava impregnado em mim sem que eu notasse…

Estou na quarta fase do curso de Jornalismo na UFSC e, na optativa de Radioteatro, escrevi em grupo uma história que eu tinha engavetado na adolescência: 50 tons do arco-íris.

Era sobre um mundo Pós-Terceira Guerra, dividido em três casas – Black (enxergam tudo em preto), Argent (enxergam tudo em cinza) e Svalbard (enxergam tudo em branco) -, uma sociedade moldada pela mentira do Governo de que as cores eram uma doença, de que viver em uma democracia é pecado. No fim, os três personagens principais que enxergam além das cores de suas respectivas casas morrem, eles se sacrificam para que o povo pudesse voltar a enxergar todas as cores do arco-íris depois de gerações de mutação no DNA humano.

Minhas amigas só descobriram esse final quando gravamos no estúdio de rádio do nosso curso e, quando ouviram o que eu havia escrito no roteiro, viraram para mim e disseram: “A gente morreu de novo, Ari? Por que a gente tem que morrer sempre?”

Ouvir aquilo foi como levar um soco no meio do estômago. Percebi que até mesmo na minha própria imaginação, que deveria ser um território livre para meu espírito criatico voar, eu já tinha sido contaminado pelos cenários que cresci consumindo: toda vez que ousamos amar, um dos dois tem que morrer.

No meu primeiro exercício da disciplina com minhas amigas, escrevi um romance lésbico sobre bruxas que também terminou em assassinato. Eu, que sempre tentei furar a bolha nos meus contos, estava apenas reproduzindo as mesmas tragédias obrigatórias que a sociedade branca e heteronormativa nos impôs e que eu tanto condenava.

Foi aí que eu percebi: não basta reclamar da falta de representatividade nas histórias, se a gente também já internalizou a tragédia como destino inevitável.

Representatividade de verdade não é trocar Romeu e Julieta por Ken e Ken com a mesma régua estética. Não é repetir a fórmula do mesmo casal plastificado com cores diferentes. É rasgar o molde, implodir a régua, quebrar a vitrine e incendiar as fábricas capitalistas que insistem em vender amor enlatado. Porque o amor verdadeiro não precisa caber em um outdoor. Amor de verdade é ver o casal principal quebrando estereótipos até virarem pó e só aí então, renascer das cinzas, juntos, como uma fênix.

Mesmo nas histórias que tentam ser “escritas certas em linhas tortas”, a gente sente. Sempre, sempre, sempre há um tropeço, uma hesitação, uma sombra de preconceito atravessando o nosso caminho. Como se amar livremente ainda fosse um “crime” velado, uma “doença contagiosa” maldita. Como se, para atravessar o rio Estige e alcançar os portões sagrados do céu, a gente tivesse que pagar um preço que só nós somos obrigados a pagar: o preço de existir inteiros sem pedir desculpas.

Se ao menos a gente tivesse crescido vendo e lendo contos de fadas com amores como o nosso… Talvez não levasse tanto tempo para descobrir que o que sentimos não é errado. Que amar alguém do mesmo sexo não é uma maldição infernal.

Mas não foi assim que aconteceu. E ainda não é.

As narrativas clássicas foram moldadas para excluir amores como o meu. E isso moldou a maneira como a sociedade olha para nós. Como nossos próprios espelhos nos devolvem um reflexo vazio. Como crescemos nos sentindo… errados. Invisíveis.

A verdade é que muitos de nós não tiveram uma adolescência normal. E estamos vivendo uma adolescência tardia. Nos escondemos quando deveríamos estar vivendo. Engolimos o primeiro amor com culpa, com medo, com silêncio. E isso deixa marcas. Cicatrizes nos amores. Cicatrizes nos sonhos. Cicatrizes nos contos de fadas que foram arrancados das nossas mãos antes mesmo que pudéssemos abrir o livro.

Então eu te pergunto, caro leitor: O que é preciso para que um romance se torne um conto de fadas? Será que todas as pessoas merecem encontrar o verdadeiro amor? Eu tenho o direito de viver o meu “felizes para sempre” como qualquer casal hétero?

Quantas vezes já te mandaram parar de sonhar alto? Quantas vezes estralaram os dedos na frente do seu rosto porque você estava sonhando acordado? Quantas vezes te disseram que é hora de crescer, de se encaixar, de esquecer o que fazia seu coração bater mais forte?

Pois eu digo: o que nos ensinaram a calar não é impossível. É real. E está vivo, em cada um de nós que ainda ousa sonhar. E talvez, só talvez, você encontre um pedaço dele no final desta história.

Não importa se você ama ele, ou E-L-E em letra maiúscula
Apenas levante suas garras
Pois você nasceu desse jeito, meu bem

Minha mãe me falou, quando eu era criança
Que todos nós nascemos super estrelas

Não há nada de errado em amar quem você é
Ela dizia: Pois Ele criou você perfeito, meu bem
Então erga sua cabeça, menino, e você irá longe
Me escute quando eu digo

Eu sou lindo do meu jeito
Pois Deus não comete erros
Estou no caminho certo, meu bem
Eu nasci desse jeito

Não se esconda atrás de arrependimentos
Apenas ame a si mesmo e você estará preparado
Não seja um personagem comum, só seja um rei

Um amor diferente não é pecado
Acredite N-E-L-E com letra maiúscula (ei, ei, ei)
Eu amo minha vida, eu amo essa canção e
Meu amor precisa de fé (mesmo DNA)

Você sendo preto, branco, pardo ou de origem latina
Você sendo libanês ou oriental
Mesmo que as deficiências da vida
Te façam sentir deslocado, perseguido ou importunado
Exalte e ame a si mesmo hoje
Pois, meu bem, você nasceu desse jeito

Não importa se você é gay, hétero ou bi
Lésbica, transgênero
Estou no caminho certo, meu bem
Eu nasci para sobreviver
Eu nasci para ter coragem”

– Lady Gaga (Born this way)/Letra adaptada.

“Meu querido, você está tão à frente do seu tempo. Essa é uma vila pequena, com mentes pequenas também. Mas ‘pequeno’ também significa ‘seguro’.” – A Bela e a Fera.

Você já se perguntou quem inventou os contos de fadas, caro leitor? 

Charles Perrault? Hans Christian Andersen? Os irmãos Grimm? Walt Disney? 

Ou será que foram as princesas solitárias, trancadas em suas torres condenadas, imaginando um mundo onde elas não teriam que esperar que alguém viesse resgatá-las do dragão monstruoso? Talvez tenham sido os corações partidos que, mesmo em ruínas, ainda ousaram acreditar na ideia de um final feliz.

Ou talvez os contos de fadas tenham sido criados por quem jamais teve um, como uma promessa não cumprida, um espelho torto que só reflete quem se encaixa nos rótulos impostos pela sociedade patriarcal e puritana. Porque, se a gente prestar atenção, eles sempre escreveram para o mesmo público: para as donzelas que sonhavam com um príncipe, mas nunca para os príncipes que sonhavam com outros príncipes. 

E se alguém tentou contar uma história fora dessa linha, arrancaram as páginas e as jogaram nas fogueiras do esquecimento. Apagaram nomes dos registros das cidades. Nos chamaram de erro, de desvio de caráter, de pecadores.

Talvez os contos de fadas não tenham sido inventados, talvez tenham sido moldados. Lapidados até que só coubessem amores que pudessem ser vendidos em capas de couro douradas. 

Na internet, sempre surge uma polêmica toda vez que um ator negro interpreta um personagem que, na história original, era branco. Foi assim com A Pequena Sereia, quando Halle Bailey ousou cantar “Parte do seu mundo” com uma voz que, pela primeira vez, parecia também ser parte do nosso. Dizem que isso é “mimimi”. Que “desrespeita a tradição”.

Mas quando atores héteros vivem amores LGBTQIAPN+ nas telas, ninguém reclama. Sabe por quê? Porque eles já têm seus lugares garantidos. Porque eles já existem em cada final feliz. Nós, não. Nós ainda estamos lutando para aparecer nas histórias, para não sermos sempre o segredo, a tragédia ou o que deve ser esquecido.

Dizem que estamos conquistando espaço nas histórias. Dizem que agora somos vistos. Representados. Celebrados. Que não devemos reclamar de boca cheia.

Mas então eu lembro de Murph, o melhor amigo negro e gay de um homem cis, hétero e branco, Brooks Rattigan, em The Perfect Date (2019), jogado no enredo como quem estoura uma garrafa de champanhe numa festa sem convite: faz barulho na entrada, mas ninguém lembra o nome na hora do brinde. Sem história. Sem profundidade. Sem sequer um sobrenome para chamar de seu.

Muitos críticos e espectadores enxergaram o que a direção do filme tentou disfarçar: Murph foi reduzido a um token, uma cota usada para decorar o elenco, mas nunca convidada a carregar um passado nas costas. Até seu arco romântico, que merecia espaço para florescer sob o nascer do sol, foi apressado, invisibilizado, sufocado, como se amar alguém do mesmo sexo fosse um erro a ser escondido nos bastidores. Como se amar fosse um ato clandestino.

Ele não foi escrito para existir. Foi escrito para preencher uma lacuna no catálogo da inclusão.

Assim como tantos de nós: escalados para caber na capa, mas nunca no roteiro. Porque a diversidade de verdade não é pintar um quadro bonito para vender ingressos, é entregar a caneta nas nossas mãos e confiar no que vamos escrever.

Queremos mais do que ser o alívio cômico ou o chaveirinho fiel. Queremos ser o herói. Queremos ser o vilão. Queremos nossos nomes nos créditos, e não apenas nas estatísticas. E enquanto não nos derem voz, continuaremos a sussurrar nas entrelinhas até que o mundo seja obrigado a nos escutar. Continuaremos quebrando janelas com tijolos.

Mas e se a gente ousasse reescrever todos os contos de fadas? E se, no fim das contas, quem os inventasse fossem os sonhadores, e não os escritores? E se a verdadeira magia do universo nascesse justamente daqueles que resistem, mesmo quando o mundo inteiro tenta trancá-los no armário, cercados por seus monstros pessoais?

Quando o live action de A Princesa e o Sapo, o meu conto de princesas favorito, finalmente for lançado nos cinemas, estarei na primeira fileira com um balde de pipoca amanteigada e uma pureza bem gelada na mão. E quando a tela escurecer e os créditos começarem a subir, vou me levantar e aplaudir de pé. Porque cada passo em direção à representatividade verdadeira é mais do que um avanço: é um abraço no coração de todas as crianças que cresceram sem se ver nos finais felizes. É um “você importa” lançado como um grito capaz de atravessar as barreiras da dimensão do silêncio, com lágrimas nos olhos e o coração batendo mais forte do que nunca. É a prova de que, mesmo depois de tantas páginas arrancadas, a nossa história ainda merece ser contada. Com magia. Com cor. Com dignidade. E com muito amor.

Prólogo (Parte 3): Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. 2012.

A luz prateada da lua cheia refletia nas águas inquietas da Ilha da Magia, como se ela também escutasse a história que minha mãe me contou naquela noite. Do lado de dentro da casa, no escuro do meu quarto pintado de azul e esperança, havia um pequeno abajur em forma de estrela – aceso, porque eu tinha medo do escuro aos seis anos -, uma cama com lençóis de super-heróis e um coração inquieto demais para adormecer sem antes ouvir um conto novo.

O som do vento se misturava ao tic-tac do relógio pendurado na parede, e havia magia no ar, não a dos livros encantados que minha mãe lia para mim, mas aquela magia que se esconde nas rotinas simples, nos gestos de carinho e cuidado que se repetem noite após noite, e, mesmo assim, nunca deixam de ser milagrosos. Foi quando a minha voz cortou o silêncio, enquanto minha mãe estava prestes a fechar a porta para ir dormir:

– Mamãe?

– Sim, meu filho?

Você pode me contar uma historinha antes de apagar as luzes? Ainda tô com medo do escuro… Não consigo dormir sem ouvir você lendo para mim.

– Claro, Mal! Qual livro você quer que eu leia desta vez?

– Um conto de fadas, é óbvio. – minha barriga doeu de tanto rir.

Ela também riu, como sempre ria nessas horas. Era uma risada leve, quase mágica, daquelas que acalmam o medo e forçam os monstros escondidos debaixo da cama a fugirem pelo portal mágico dentro do armário.

– Eu não sei por que ainda pergunto…

Ela se sentou na beira da minha cama, abriu o livro fino de capa lilás – o meu preferido – e disse:

Livro que minha mãe lia.

– Hoje, vou te contar uma história que se perdeu no tempo. Uma que quase ninguém conhece. Apenas as mães.

– É de verdade?

– Tão verdadeira quanto todas as outras que carregamos dentro do coração.

E então ela começou a contar:

Há muito tempo, na Primeira Era, o mundo era completo. Não havia oceanos separando as pessoas. Era uma única Terra. Um único povo. Um único coração. Um único reino. 

Aquele era o tempo da Pangeia, e sim, foi um grande explorador e cientista chamado Alfred Wegener que descobriu essa verdade escondida. Em 1912, enquanto todos diziam que era loucura, ele ouvia as histórias que a Terra contava através de suas rachaduras. Ele descobriu o segredo que havia sido apagado dos livros de história.

Imagem: Mundo Educação.

Naquela época esquecida, havia um rei muito velhinho. O nome dele também se perdeu com o passar dos séculos, mas dizem que ele era justo e muito sábio, embora só encontrasse forças para sair da cama quando a necessidade fosse tão grande quanto o próprio destino do reino. Ele sabia que seu fim estava próximo, e que o reino precisava de alguém digno para carregar a coroa quando ele se fosse, alguém que colocasse as vontades do povo acima do próprio ego.

Mas o rei não tinha um herdeiro sequer e ele não confiava nas palavras do povo, porque todos tinham aprendido a mentir com tanta beleza que até os espelhos já não sabiam mais dizer quem falava a verdade.

Foi então que ele fez algo que ninguém esperava.

Chamou os oito jovens mais promissores do reino e entregou a cada um deles uma semente, dizendo: “Voltem aqui daqui a um ano, com a flor mais bela que conseguirem cultivar em seus jardins com essa semente.”

O que ninguém sabia era que aquelas sementes estavam queimadas por dentro. Elas jamais iriam florescer. Nada que fizessem com elas funcionaria. Nem mesmo rezar.

Um ano depois, os oito garotos retornaram ao palácio. Naquele dia, o rei ordenou que todo o povo se reunisse na sala do trono para testemunhar a escolha de seu sucessor. Sete deles trouxeram flores dignas do jardim real, azuis, douradas, rosas com cheiro de mel. Mas um deles, apenas um, voltou com um vaso vazio nas mãos. Apenas com a terra que colocara lá um ano atrás. Todos os outros cochichavam e zombavam dele ao redor do trono, escondidos nas sombras.

– O que houve com sua flor? – perguntou o rei.

E o menino respondeu, com os olhos lacrimejando:

– Eu a reguei todos os dias. Coloquei-a para tomar banho de sol, conversei com a terra, mas… ela nunca brotou. Eu falhei. Eu decepcionei você e o nosso povo. – disse o garotinho, curvando a cabeça, envergonhado.

O rei se levantou do trono e sorriu pela primeira vez em muitos anos. E então declarou para o povo:

– Este é o herdeiro do meu reino. Porque ele trouxe a verdade.

Todos encararam o rei, surpresos.

Os outros garotos haviam trocado as sementes queimadas por férteis para impressionar o monarca. Mas o menino do vaso vazio… ele foi o único que confiou mais na honestidade de seu coração do que no destino que o aguardava se tivesse obtido sucesso em sua missão.

E foi naquele momento, segundo as lendas da Primeira Era, que a Terra estremeceu. A mentira daqueles sete garotos rasgou o coração do mundo em vários cacos, cada um jorrando lava ardente como se o próprio núcleo da Terra tivesse explodido em fúria. 

O chão se moveu, o céu chorou em silêncio, e os continentes começaram a se afastar uns dos outros. A Pangeia se despedaçou em sete partes, como a alma de quem tenta governar com vaidade.

– Por isso o mundo se dividiu, querido. Porque os homens escolheram a aparência no lugar da sinceridade.

“A maior ilusão deste mundo é a ilusão da separação. Coisas que você pensa que estão separadas e diferentes, são certamente a mesma coisa. Como os Sete Continentes. Todos somos um só povo, mas vivemos divididos. Tudo está conectado. Inclusive a separação dos quatro elementos é uma ilusão. Se você abrir sua mente, verá que todos os elementos são um só, quatro partes de um todo.” – Avatar: O último mestre do ar.

O menino, Mal Yang, enrolado em sua coberta, olhos vidrados, sussurrou:

– Mas por que a semente não nasceu, mamãe? Eu ainda não entendi essa parte…

Ela acariciou o cabelo cacheado dele e respondeu, com a voz tão suave quanto uma canção de ninar:

– Porque algumas verdades não florescem para agradar… florescem para nos ensinar. E, às vezes, o que parece ser um fracasso é o início de uma nova Era. De um novo mundo.

“Mamãe, é verdade que quando fazemos um pedido à estrela mais brilhante do céu, esse pedido é realizado?” – A princesa e o sapo.

“Sempre reze para as estrelas, querido. Deseje e sonhe com muita fé no coração. Mas lembre-se, Mal, que aquela estrelinha só é responsável pela metade. O resto você faz com muito trabalho. E então, aí sim, vai poder fazer tudo o que imaginar.” – A princesa e o sapo.

Ela sorriu, deu um beijo demorado na testa do filho e se levantou, caminhando até a porta. Antes de sair, lançou-lhe um último olhar cheio de carinho, como quem promete vigiar seus sonhos mesmo à distância. O pequeno abajur em forma de estrela continuou aceso, espalhando um brilho suave pelo quarto, afastando os medos que espreitavam nos cantos escuros.

Mal arrastou-se até a beirada da cama, abrindo um pouco a cortina para ver o céu noturno. Seus olhos encontraram a estrela mais brilhante, pulsando sozinha no alto.

– Me atende, me atende, me atende… Eu desejo um dia encontrar um amor tão especial quanto o da mamãe e o do papai. – susurrou, como se suas palavras pudessem atravessar o universo inteiro.

A estrela cintilou de repente, um piscar rápido e inesperado, como se estivesse respondendo ao seu pedido secreto. E, naquele instante, Mal acreditou. Um calor suave tomou seu peito, e ele se aconchegou abraçando o travesseiro, sorrindo de leve. O quarto parecia menos escuro, e ele adormeceu pensando naquele vaso vazio, no príncipe escolhido para governar pelo seu coração bondoso, nas sementes que não nascem, mas, mesmo assim, conseguem mudar o mundo.

“Talvez seja bom ser criança de vez em quando.” – Percy Jackson.

E, na manhã seguinte, o livro de capa lilás havia sumido da estante. Como se nunca tivesse existido. O estranho é que nem Mal Yang, nem sua mãe pareciam notar sua ausência. Eles simplesmente… esqueceram. Como se a história tivesse sido apagada não só da memória deles, mas também do coração.

Mas tem histórias que, mesmo quando esquecidas, continuam vivas dentro da gente, como sementes adormecidas, esperando o momento certo para florescer.

“Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais, porque o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.” (Marcos 10:14)

Prólogo (Parte 4): A profecia do Apocalipse (escrita antes da Terra ser dividida em Sete Continentes).

Caro leitor, este é o seu último aviso. Esta é a última oportunidade que você terá de fechar este livro, apagar esta tela ou virar as costas e fingir que nunca esbarrou nestas palavras. Depois daqui, você não poderá me acusar de não ter te alertado.

O que está prestes a ler não é bonito. O que você está prestes a ler pode destruir o seu dia. A sua noite. A sua semana. O seu mês. O seu ano. Quem sabe… o resto da sua vida. E talvez até o que restar da sua fé na humanidade.

Não sou uma espécie de profeta, nem pretendo ser. Não estou aqui para vender promessas douradas nem finais felizes embalados em laços brilhantes de cetim. Sou apenas um viajante do tempo, um desertor do futuro, alguém que decidiu romper com as autoridades do meu tempo, e confiar o destino do mundo nas mãos de quem ainda pode mudá-lo: você.

Fui banido por desafiar a linha do tempo. Sou um fugitivo que ousou roubar o fogo dos deuses e entregá-lo nas mãos dos mortais.

Se eu pudesse apagar da minha mente o que vi, apagaria sem hesitar. Se eu pudesse voltar no tempo e viver na doce ignorância, onde o céu ainda parecia azul e as nuvens eram feitas de algodão doce, voltaria correndo, sem olhar para trás. Se pudesse reescrever o que vi, reescreveria.

Mas eu não posso. E agora, se você decidir prosseguir com a leitura, também não poderá. Portanto, não invejo, nem por um segundo, o peso que você está prestes a carregar.

Porque ninguém deveria conhecer o próprio futuro. Nem mesmo os deuses ousam desafiar o fio das mouras sem enfrentar a sua fúria. As mouras, tecelãs do destino, não perdoam quem tenta rasgar seus fios sagrados. Elas arrancam os olhos de quem ousa ver demais sem dó e nem piedade. Há uma razão para isso: o futuro, uma vez conhecido, exige um preço.

Mas se você quiser seguir adiante, se quiser encarar o Ceifador de frente, sentir o cheiro de enxofre dele queimando suas narinas, sentir a sua pele arrepiar até a raiz dos cabelos, e ainda assim conseguir sair vivo… parabéns! A partir de agora, você está marcado para ser cúmplice da esperança, ou da ruína. É você quem vai escolher: usar essas palavras para salvar ou para destruir o mundo como o conhecemos.

Como dizia Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

Acredite: não foi por misericórdia que o futuro sempre nos foi negado. Foi por proteção. E conhecimento, meu caro leitor, é uma lâmina de dois gumes: corta a ignorância, mas também sangra a inocência. Os eventos que você verá neste prólogo ainda não aconteceram. Mas podem acontecer. Estão à espreita, como lobos escondidos entre a névoa, esperando o momento certo para atacar sua vítima.

Talvez ainda haja tempo para mudar o futuro. Talvez ainda possamos salvar o que resta da verdadeira essência da humanidade. Mas não há tempo o suficiente para hesitações, para covardias, para confortos egoístas. Se for possível mudar o que vi, será à base de grandes protestos, gritos sufocados e cartazes erguidos contra um céu em chamas. E não pare de lutar na primeira bala de borracha, nem nas bombas de gás lacrimogênio e muito menos nas porradas de cassetete.

Saiba que este é um caminho sem volta. O tempo não está do nosso lado. A ampulheta está quebrada. E a areia já está caindo.

E eu mesmo, enquanto escrevo, não sei se estou fazendo o bem… ou condenando você ao fardo de um conhecimento que ninguém deveria carregar. Eu roubei essas informações do escritório particular do próprio Destino. Mas aqui estou, rasgando o véu celestial do espaço-tempo. Abrindo e cutucando a ferida. Contando a verdade que nos foi negada.

Não quero estragar o seu café da manhã ou o seu domingo preguiçoso. Não quero escutar suas lágrimas ou suas orações. O que está por vir não é um conto, nem uma metáfora, nem um pesadelo do qual você poderá acordar. É uma profecia.

Não carrego uma coroa, nem falo em nome dos deuses. Eu não luto mais por mim. Luto pelas fagulhas de esperança que ainda dançam no escuro.

Se escolher virar esta página, que seja com a consciência de que você jamais será o mesmo. Porque a mudança exige sacrifício. A revolução exige coragem para acreditar em um novo amanhecer. E os muros do velho mundo não caem com promessas vazias faladas da boca para fora.

Se estiver pronto, siga-me. Só assim o futuro poderá ser reescrito. Se não estiver… já é tarde demais. Não perca seu tempo ouvindo minha mensagem de alerta se vai deixá-la entrar por um ouvido e escapar pelo outro.

Agora, escolha: Fechar este livro… ou cruzar uma linha sem volta.

Mas se o estômago revirar e abandonar esta história parecer mais fácil do que encarar o que está por vir, tenha ao menos a decência de acorrentar este livro a sete chaves, enterrá-lo onde nenhum olhar vivo possa encontrá-lo e lançar cada uma dessas chaves em um canto diferente do oceano, onde nem mesmo a luz ousa mergulhar.

Ou entregue-o a mãos menos frágeis, mãos que não deixariam a humanidade sangrar sozinha como está acontecendo agora. Fechar estas páginas não vai apagar nada do que está por vir. Cada lágrima futura derramada, cada estrela que se apagar antes da hora, cada borboleta que tiver as asas dilaceradas vai carregar um nome: o do leitor que fugiu quando o mundo implorava por coragem.

Mão na alavanca, pensei que tinha capturado um raio em uma garrafa
Ah, mas o perdi outra vez
E estava escrito, fui amaldiçoado como Eva e Adão
Ah, foi punição?
Ando de um lado pro outro quando chego em casa, acho que uma pessoa mais fraca já teria perdido a esperança
Uma mais forte não imploraria, mas eu olhei para o céu e disse

Por favor, tenho estado de joelhos, mude a profecia
Não quero dinheiro, só alguém que queira a minha companhia
Deixe ser eu uma vez na vida, com quem preciso falar
Pra ver se podem reescrever a profecia?

Cartas na mesa, as minhas se desenrolam como dois tolos em um fábula
Ah, estava afundando
Areia movediça é lenta, sangue envenenado de uma ferida
Ah, eu ainda sonho com ele

E eu soo como uma criança, me sinto como as últimas gotas de tinta de uma caneta-tinteiro
Uma pessoa mais forte fica tranquila, mas eu uivo para a Lua como um lobo
E eu pareço estar instável, reunido, com um clã de bruxas, ao redor de uma mesa de feitiços
Uma pessoa mais forte tem fé, mas até mesmo estátuas desmoronam se as fizerem esperar
Eu tenho tanto medo de já ter selado o meu destino, não há sinal algum de uma alma gêmea
Sou apenas um peso de papel em tons de cinza
Gastando meu último centavo pra alguém me dizer que
Vai ficar tudo bem (Ooh, ooh)

Com quem preciso falar pra mudar a profecia?
Por favor
– Taylor Swift (The Prophecy)/Letra adaptada.

Que o Deus do amor e da esperança eterna tenha piedade de nós, pois o tempo nunca teve e nunca terá. E que as borboletas, se sobreviverem, saibam para onde voar.

A magia, a verdadeira magia dos contos de fadas, ainda pode voltar a florescer em nossos corações, porque ela vive na escolha de cada um, como um voto solitário que, junto aos outros, decide o destino de todos. Tudo depende de algo simples, mas muito poderoso: que cada um de nós acredite que pode fazer a diferença no mundo com sua voz.

“Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o feriram. Até os que o negaram. E todas as tribos da Terra hão de se lamentar por ele. Quando o sexto selo foi rompido, houve um grande terremoto; o sol tornou-se negro como saco de crina, a lua ficou como sangue, e as estrelas do céu caíram sobre a Terra. O céu se enrolou como um livro antigo; montes e ilhas desapareceram dos seus lugares. Nada permaneceu. E então, fez-se que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, fosse posto um sinal na mão direita ou na testa. E ninguém podia comprar, ninguém podia vender; a não ser aquele que trouxesse o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome. E o diabo, o grande enganador, foi lançado no lago de fogo e enxofre. Lá estavam a besta e os falsos profetas, e ali arderão; de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre. Mas eis que vi, no fim dos fins, um novo céu e uma nova Terra; porque não há mais resquício do primeiro céu e da primeira Terra, e o mar já não existia. Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas são passadas.” – Apocalipse 1:7; 6:12-14; 13:16-17; 20:10; 21:1-4.

Era uma vez um reino à moda antiga, preso às tradições. Aqui, todos cumpriam seus papéis sem questionar. Mal sabiam eles que seu mundo estava prestes a mudar.” – Cinderela (2021).

Espelho, espelho meu… o que aconteceu com o mundo que eu conhecia? Conte-nos o que aconteceu quando os homens rasgaram a Terra até não sobrar mais pele para costurar. – perguntei ao espelho rachado do meu quarto.

– Era uma vez, um mundo que acreditava estar seguro demais para desmoronar… – sussurrou a voz trêmula do espelho encantado, refletindo não um rosto, mas os fragmentos de uma Terra partida em milhares de pedaços.

  • 2020 – A maldição da pandemia:

Um sopro invisível percorreu todo o globo terrestre, e o mundo, que antes girava, parou. O vírus da Covid-19 se espalhou como uma maldição, fechando fronteiras, separando famílias, apagando o brilho dos olhos das pessoas.

Alguns diziam que era só um “resfriadinho”. Outros gritavam sobre chips de rastreamento nas vacinas. E, no meio da loucura, ainda zombavam dos conscientes: “Hahaha, vai virar jacaré.”

Enquanto isso, a morte pulava de casa em casa, invisível, insaciável. E o governo? Ao invés de nos proteger, apenas cruzou os braços e disse: “Eu não sou coveiro!” enquanto escondia cilindros de oxigênio em casa, caso um dia precisasse salvar a si mesmo.

  • 2021 – A rendição do gigante:

Os Estados Unidos da América bateram em retirada do Afeganistão. O império, que se achava invencível, deixou para trás mais do que armamento: deixou caos. Um buraco geopolítico se abriu como uma ferida no centro da Ásia e, das suas bordas sangrando, os antigos monstros renasceram em silêncio.

  • 2022 – O rugido dos impérios e o último suspiro da rainha:

A Rússia invadiu a Ucrânia e o mundo tremeu. As sanções vieram como espinhos, mas o sangue já havia sido derramado. O sol da Europa perdeu seu calor. As tropas da OTAN marcharam mais uma vez para as fronteiras do medo, revivendo os fantasmas da Guerra Fria.

E como se o chão já não estivesse rachado o suficiente, o fim de uma era chegou: a Rainha Elizabeth II morreu. Setenta anos de reinado terminaram com um suspiro. A Inglaterra mergulhou no luto, mas foi o mundo inteiro que sentiu o baque, o símbolo de estabilidade se foi. Um novo ciclo começou, sem bússola, sem norte, sem poesia.

“Não nos levemos muito a sério. Nenhum de nós tem o monopólio da sabedoria e devemos estar sempre prontos para ouvir e respeitar outros pontos de vista. O sofrimento é o preço que pagamos pelo amor. Sempre foi fácil odiar e destruir. Construir e cuidar é muito mais difícil. Quando a vida parece difícil, os corajosos não se deitam e aceitam a derrota; em vez disso, eles estão mais determinados a lutar por um futuro melhor. E quando a paz chegar, lembre-se de que será para nós, as crianças de hoje. Para tornar o mundo de amanhã um lugar mais feliz.” – Rainha Elizabeth II.

  • 2023 – Alianças antigas desmoronam:

Israel e Hamas reacenderam uma guerra antiga em meio às cinzas. A China rugiu para Taiwan. Enquanto os EUA, exaustos de tantas batalhas, tentavam tapar buracos com promessas escritas em um papel molhado.

Enquanto isso, o BRICS ergueu sua bandeira como alternativa ao Ocidente, abrindo as portas para novos membros. Velhos aliados já não se reconheciam mais no espelho.

  • 2024 – Velhos fantasmas retornam ao poder para tirar o nosso sono:

Donald Trump voltou ao trono. Com punhos de ferro e um sorriso irônico, rasgou tratados, ergueu muros e alimentou fábricas de pólvora. Os EUA começaram a se isolar do resto do mundo… e os aliados da OTAN já não falavam mais a mesma língua. O mundo começou a trincar nas bordas.

Na América Latina, os ventos sopraram forte em direção ao passado: Bolsonaro e suas sombras ganharam força, ecoando discursos que dividem, que excluem, que queimam os divergentes. O autoritarismo começou a se vestir novamente com roupas de gala.

E o espelho mágico quebrado, em voz baixa, sussurrou ao mundo: “Vocês queriam finais felizes… mas esqueceram que até os contos mais doces têm madrastas malvadas e guerras por mais poder. E a pior das maldições é aquela que se disfarça de progresso.”

  • 2025 – O último amém antes da ganância dos abutres quebrar o planeta:

A guerra comercial entre Estados Unidos e China deixa de ser apenas um jogo de tarifas e vira um abismo sem volta. 145% de impostos de um lado. 125% do outro. O comércio global sangra.

E então, no dia 21 de abril, o mundo para por um instante: o Papa Francisco morre. Aos 88 anos, seu coração se cala, mas o burburinho da profecia do apocalipse se ergue mais alto que os sinos do Vaticano. “O fim está próximo”, murmuram vozes em igrejas esvaziadas pela fé desgastada.

Navios param de cruzar os oceanos, como se o próprio mar também tivesse desistido de testemunhar a insanidade da humanidade. Mercadorias apodrecem em contêineres abandonados em alto mar.

O BRICS, numa última cartada de resistência, lança uma moeda digital que desafia o dólar. O império financeiro do Ocidente treme. Mas o que é dinheiro, quando não se tem comida?

Enquanto isso, no Oriente Médio, a guerra entre Israel e Hamas chega ao seu ápice, e ao seu fim tão aguardado. Israel, munido de apoio tático e poder de fogo superior, vence militarmente. Mas a vitória vem coberta de cinzas.

Gaza é deixada em ruínas. Milhares morrem. Milhões se calam. O mundo assiste, dividido entre o horror e a impotência. Reféns israelenses, mantidos sob o solo de Gaza, são libertados, alguns vivos, outros em pedaços, outros apenas em porta-retratos pendurados nos corredores do luto.

O resgate é transformado em palco: manchetes gritam, câmeras tremem, discursos políticos tentam vender redenção enquanto o preconceito ainda pulsa. Os sobreviventes são estampados em embalagens de sucrilhos, mascotes plastificados de um genocídio digerido com leite e superficialidade. O sofrimento, triturado em combustível para mais violência.

E a paz, essa palavra que já foi tão sagrada, agora é esquartejada, arrastada pelos escombros e exposta nas praças como o corpo de Tiradentes: não como mártir, mas como ameaça. Um aviso cruel aos pacifistas e aos sonhadores: “Este é o destino dos que ainda ousam crer na reconciliação.”

Na Ucrânia, os gritos se tornam sussurros. Sem apoio, o país é engolido pela Rússia. As bandeiras mudam. A esperança, finalmente, se encontra com o Ceifador.

“Peço-lhes, como irmão, que permaneçam na paz.” – Papa Francisco.

  • 2026 – Os sete mares engolem as promessas vazias:

As calotas polares atingem o ponto de não retorno. O planeta arde. Dois graus a mais. Dois graus bastam para que florestas virem chamas, para que o céu nunca mais saiba o gosto da chuva fresca. E a terra… a terra recusa o cultivo. O pão se torna luxo. A fome se torna lei.

O nível do mar ultrapassa os 3 metros, como se os oceanos tivessem perdido a paciência. Amsterdã afunda lentamente, como uma lembrança melancólica de civilização, a capital da Holanda se torna uma lenda urbana. Bangcoc vira um arquipélago. As ondas não só levam cidades, mas arrastam histórias, passados e sonhos inteiros. O Atlântico não perdoa.

Nova York afunda entre sirenes e orações. Miami desaparece. Veneza vira memória. Tóquio, Londres, Rio de Janeiro… as cidades do futuro se tornam ruínas do passado. O litoral brasileiro dissolve-se como sal na água.

Os oceanos, antes símbolo de vastidão e mistério, agora são túmulos de plástico, petróleo, chumbo e sangue. As correntes marítimas carregam a memória de um mundo afogado, lixo, radiação e corpos irreconhecíveis. O sal virou veneno. E o céu se retirou como um pergaminho se autoenrolando. O mar, ofendido por tanto tempo sendo poluído, decide se vingar, e ele não perdoa.

A OTAN tenta agir, mas suas engrenagens estão enferrujadas. Tropas se perdem, aviões caem, ajudas humanitárias viram armas de barganha. A diplomacia se afoga na lama. A China atravessa o estreito e invade Taiwan. Os EUA respondem. Os céus do Pacífico se enchem de fumaça e drones. O mundo assiste à beira do abismo, e ninguém pisca.

No Oriente Médio, a guerra pela água torna-se mais cruel do que qualquer conflito por petróleo. Israel, Irã e Turquia: todos lutam por um gole de vida.

A crise de refugiados climáticos se transforma em guerras sem nome. Grupos armados, muros invisíveis, fronteiras líquidas. A humanidade começa a se dividir não por nacionalidade, mas por altitude. A água sobe. A compaixão afunda.

E no Brasil, a esperança despenca do Planalto. Um golpe militar, apoiado de longe pelos EUA, leva o país ao caos. O verde da bandeira, que antes simbolizava nossas florestas, é tingido de vermelho, de sangue e fogo. O dourado dos nossos tesouros vira preto, mergulhando o país em luto profundo. Nossas riquezas são saqueadas pela ditadura que volta a se estabelecer no poder. E o azul… o azul se afogou junto com o futuro. Onde antes havia mares e céus infinitos, agora só resta um cinza musgo, espesso, manchado de químicos e fuligem. O horizonte se recolheu, como um animal ferido.

Nas ruas, ninguém sabe mais quem é amigo ou inimigo. As pessoas já não sabem em quem confiar.

  • 2027 – Os poderosos se ajoelham:

As megacidades morrem lentamente. Sem energia. Sem drenagem. Sem humanidade. Milhões fogem. A Terra se transforma em um jogo cruel de cadeiras, todos procurando onde sentar, e cada vez menos cadeiras. Cada vez mais pessoas inocentes sendo pisoteadas por sapatinhos de cristal. Com os sistemas colapsando e os recursos escassos, a energia elétrica torna-se um bem precioso.

Governos e corporações remanescentes começam a priorizar seu uso para manter ativas as grandes inteligências artificiais, responsáveis por segurança, vigilância, simulações climáticas e decisões de guerra. Enquanto servidores subterrâneos continuam operando em áreas protegidas, vilarejos e cidades pequenas mergulham no escuro. A humanidade é negligenciada no apagão.

A luz, agora, pertence às máquinas. Era nós ou eles. Nem preciso dizer que foi uma escolha fácil para os poderosos, nem pararam para debater em um conselho. Apenas tiraram a tampa da caneta e abriram as portas do inferno. Quem disse que a espada é mais poderosa do que a caneta nunca viu um contrato com a Morte ser assinado às pressas.

Essa inversão de prioridades provoca revoltas, sabotagens e o surgimento de cultos tecnológicos, que veem as IAs como novas divindades, oráculos charlatões que decidirão quem vive, quem morre e quem será simplesmente esquecido pelo livro da vida.

Na Europa, o mapa se redesenha à força. A Rússia estende seus braços sobre os Bálcãs. A OTAN, já ferida, reage com fúria. Pela primeira vez, declara estado de guerra total. Mas sua casa já está rachada. Hungria e Turquia abandonam a aliança. A união vira baderna.

No sul do mundo, uma nova tragédia é desenhada por Ares, o deus grego da guerra: Brasil e Argentina entram em conflito armado. Terras altas e poços d’água potável se tornam mais valiosos que o petróleo. Irmãos de continente se tornam carrascos.

E então, o espelho, cansado, trincado, cheio de pó, sussurra sua última advertência: “Eles zombaram dos profetas. Ignoraram as fadas borboletas. Aprisionaram os poetas e os músicos. Calaram os jornalistas. E esqueceram que até a Terra tem limite. Agora, o que resta? Corações partidos. Borboletas mortas. E um céu que já não guarda promessas de um amanhecer seguro.”

“Espelho, espelho meu… o que restou de um mundo que ignorou os avisos do céu, da terra, do mar e do coração?”

  • 2028 – O colapso dos Governos:

A Amazônia, sufocada entre o fogo da ambição e o fuzil da guerra, dá seu último suspiro. Onde antes havia vida, agora há um deserto envenenado. Sem folhas, sem sombra, sem cura.

Diante do caos, a humanidade faz o que sempre fez: ergue muralhas. Cidades-fortaleza emergem nas montanhas. Os Andes viram refúgio. O Himalaia, um santuário militarizado. Ali, corporações, exércitos privados e cultos religiosos controlam comida, água e a fé. Criam regras próprias, símbolos novos, deuses sedentos. O mundo se torna um tabuleiro quebrado.

Europa, América Latina e Ásia: todos em guerra. Ninguém mais luta por ideais, agora, luta-se por sobrevivência. A China colapsa internamente. O BRICS, antes promessa de um novo eixo global, se desfaz em silêncio, como um sonho bom interrompido pelo bicho-papão. A ONU, sem poder, sem sede, sem voz, dissolve-se, como se tivesse evaporado sob o calor do fim dos tempos. Sem mediação, sem diplomacia, sem assembleias. Apenas o vazio entre bombas nucleares e gritos de agonia.

A paz virou uma lenda que ninguém mais sabe contar, nem mesmo ao redor das fogueiras, onde antes as histórias encontravam um porto-seguro. E os livros de história? Foram queimados para aquecer corpos. O mundo não acabou em gelo ou fogo. Acabou com um tsunami colossal de ignorância. Com o silêncio de quem escolheu não ouvir. Agora… só restam os escombros das promessas vazias.

“Espelho, espelho meu… quem é o mais mortal entre os filhos da Terra que sobraram?”

  • 2029/2030 – A Terceira Guerra Mundial entra em erupção:

O primeiro clarão veio do leste. Um ataque tático russo sobre a Polônia rasgou o silêncio radioativo da diplomacia morta. Sem saber que respirava pela última vez, a OTAN respondeu em segundos. E o que era medo virou certeza: a Terceira Guerra Mundial começou.

Tel Aviv desapareceu antes do amanhecer. Teerã, antes do pôr do sol. Israel e Irã trocaram o peso da história por bombas de meio alcance. A fé se desfez em poeira incandescente. E então o céu caiu. EUA e China não lutaram com soldados, lutaram com sombras, satélites, armas hipersônicas que apagaram cidades sem que ninguém ouvisse o som da explosão. Apenas o silêncio dos circuitos queimando, da tecnologia morrendo junto com a promessa de um futuro inalcançável.

O Brasil virou uma arena. Não havia mais um país, apenas estilhaços. Milícias paramilitares e tribos desesperadas pela última gota da Amazônia destruída. Cada rua virou fronteira. Cada esquina, um campo de batalha. Cada palavra, uma ameaça.

Enquanto isso, longe das armas, outra guerra acontecia por trás dos panos: a guerra cibernética. Hackers e algoritmos travaram combates silenciosos nas entranhas do sistema. E venceram. O mundo entrou em blackout. Bancos foram assaltados, luzes apagaram, torres de sinal sucumbiram. Quem dependia do digital, morreu com ele.

A Terra tremeu. E os homens imploraram às montanhas: “Caia sobre nós, esconde-nos da ira que nós mesmos semeamos no planeta.”

Não há vencedores. Só sobreviventes, se é que ainda podemos usar essa palavra. Estamos mais para fantasmas de carne e sangue.

“Espelho, espelho meu… o que restou da humanidade, quando até os contos de fadas foram queimados?”

  • 2031/2035 – O Mundo Pós-Apocalíptico:

Os mapas tornaram-se inúteis. As fronteiras viraram lendas. A humanidade, despida de suas bandeiras, sobrevive, ou pelo menos tenta, em pequenos feudos de poeira e silêncio. Alguns nômades vagam entre ruínas submersas, carregando o peso da memória de um mundo que desmoronou. Outros se enterram em cavernas de concreto, tentando fingir que o apocalipse foi só um pesadelo mal contado.

A água virou moeda. A comida, um mito. Uma garrafa potável vale mais do que um diamante. Um grão de arroz é mais precioso do que uma pepita de ouro. Um frasco de remédio brilha mais do que uma estrela recém-nascida. Os escombros das grandes cidades agora servem de abrigo para saqueadores tatuados pelo desespero, piratas sem mar e clãs armados que impõem suas leis com pólvora e dor.

Os tons de neon da modernidade foram substituídos por tochas e olhos atentos no escuro. Qualquer vestígio de tecnologia antiga é disputado como tesouro perdido, placas solares, carregadores esquecidos, circuitos quebrados de drones sem asas. Facções e seitas tomam conta das poucas terras férteis, impõem doutrinas e escravizam os frágeis. A democracia morreu muito antes dos Governos.

O comércio, agora, é feito com o que se tem: um litro de gasolina por um antibiótico vencido. Um código de acesso por um pão mofado. Um segredo íntimo por uma noite sem medo. Um sonho por um teto desmoronando. E onde a luz ainda tenta brilhar, há esperança.

Em bunkers nas montanhas, cientistas renegados, tentam salvar o que puderem manipulando o DNA humano. Tentam reescrever a história com o que restou: páginas rasgadas de livros proibidos, discos rígidos salvos às pressas, cartas de amor queimadas pela metade. Tentam preservar a semente do que fomos, na esperança de que, algum dia, alguém ainda deseje florescer.

Mas nem mesmo ali, no frio das rochas, alguém ousa dizer que estamos vivos. Porque não estamos. Ainda não morremos, é verdade. Mas também já não vivemos, somos apenas sombras de um passado não tão distante que insiste em sobreviver. A Terra continua girando, mas está presa no mesmo lugar. O tempo foi quebrado. O céu se recusa a amanhecer. As estações pararam de mudar. E o mundo, o nosso mundo, virou uma música engasgada no mesmo refrão, repetida até o sonho mais teimoso se cansar de inspirar.

Fique com seu capacete, fique com sua vida, filho
É apenas uma ferida superficial, aqui está o seu rifle
Senhor, acho que ele está perdendo sangue
E sobre algumas coisas você simplesmente não pode falar

Com você eu sirvo, com você eu caio, caio
Vejo você inspirar, vejo você expirar, expirar

Algo que a faculdade de medicina não ensinou
O filho de alguém, a mãe de alguém
Segura sua mão através do plástico agora
Doutor, acho que elu está desmaiando

Apenas vinte minutos para dormir
Mas você sonha com alguma epifania
Apenas um único vislumbre de alívio
Para entender o que você viu
– Taylor Swift (Epiphany)/Letra adaptada.

A parte 4 do prólogo ainda não está finalizada!!!!!!


Florianópolis, 22/04/2023 – Este conto poético foi produzido para o meu blog, no antigo Twitter, hoje X: Cartas de El (atualmente desativado). Modificado e publicado no site ariellcristovao.com em: 04/10/2025.

Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras.”

Cada palavra e ideia aqui compartilhada são frutos de minha autoria e dedicação. O plágio é crime, conforme previsto no artigo 5º, inciso XXVII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei 9.610/98, e pode resultar em sanções legais. Respeitar o trabalho alheio é essencial para a construção de um ambiente de criatividade e respeito mútuo.

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