Conto/Manifesto histórico-ficcional: O amor não é para os condenados!

Imagem: Gerada por inteligência artificial (IA) usando ChatGPT para este conto.

Caro leitor, você acredita que almas gêmeas realmente existem? De onde você acha que surgiu a ideia de que nós, humanos, compartilhamos uma alma com outro ser?

O conceito de alma gêmea remonta à Grécia Antiga e foi explorado de forma poética e filosófica por Platão, em sua obra O Banquete. Nesse texto, Platão tenta desvendar a essência do amor. 

Durante uma celebração dedicada a Eros, o deus grego do amor, os filósofos presentes se revezavam para prestar oferendas em sua homenagem. Entre todos os discursos, o mais fascinante é o de Aristófanes, que nos oferece uma explicação tão encantadora quanto trágica sobre o amor. Ele começa descrevendo que, no início dos tempos, os humanos eram seres completos: criaturas com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Eram incrivelmente poderosos, mas tornaram-se arrogantes, invejosos e constantemente desafiavam a boa vontade dos deuses. 

Então, para nos conter e impedir que alcançássemos a perfeição divina, temendo que deixássemos de adorá-los, Zeus, o rei dos deuses, lançou um raio na Terra que os dividiu ao meio, nos separando para sempre.

Desde então, os humanos se tornaram incompletos, frágeis diante das tentações, condenados a vagar pelo mundo em busca de sua outra metade, fosse ela a metade da laranja ou a tampa da panela, acreditando que, ao encontrá-la, finalmente estariam completos novamente. E junto dela viria uma felicidade jamais sentida por nossos corações humanos, que nos faria sair noite adentro, cantarolando para as estrelas, sem rumo, sem roteiro, apenas com o simples desejo de proclamar ao universo que somos a pessoa mais feliz do mundo.

Eu acredito no amor, sim. Acredito na força invisível que nos guia para as nossas metades perdidas, nas estrelas que sussurram promessas de reencontros. Mas também acredito que existem pessoas que foram escolhidas a dedo para nunca vivê-lo, para vagar eternamente em busca de algo que jamais encontrarão, incapazes de praticar a magia do amor. Ainda bem que tudo isso não passa de uma mitologia, um conto de fadas. Não precisamos de deuses para estragar nossas vidas, quando desempenhamos esse papel tão bem.

Esta história não é sobre alguém que perdeu a fé no amor, mas sobre alguém que, por muito tempo, duvidou que poderia ser feliz. Lá no fundo do seu coração, você sabe exatamente de quem estou falando…

Salém, Colônia Inglesa de Massachusetts (atual EUA).
31 de outubro de 1692: Sexta-feira.

Antes de começarmos, caro leitor, aqui vai uma curiosidade intrigante sobre a cidade onde moro: o nome “Salém” deriva do hebraico e significa “paz”. É irônico, quase trágico, que um lugar com um nome tão cheio de significado, que remete à harmonia e à tranquilidade, tenha se tornado palco de tanta dor, perseguição e intolerância durante anos. Talvez isso nos ensine que até mesmo os nomes mais sagrados podem ser desonrados pelas ações de quem os carrega.

Querido diário, escrevo em suas páginas de coração partido, quase sem esperança em meu peito. Minhas lágrimas mancharam o papel, mas não posso deixar de registrar as minhas últimas palavras para esse amor que me arrastou para os confins mais sombrios do inferno.

Havia uma beleza especial na maneira como ele andava pelas ruas de Salém, como se estivesse acima das sombras e das superstições que atormentavam a cidade. Para ele, eu era apenas mais uma dessas sombras, algo a temer, a desprezar, a evitar. Mas, para mim, ele era tudo. Ele era a luz da lua em noites cobertas de gelo e escuridão, a promessa de um calor que eu nunca conheci.

Naquela sexta-feira, não foi o sino da igreja que me condenou. Foi ele. Foi o seu olhar de desprezo, o riso cruel que ele lançou quando me aproximei com meu coração nu e inseguro. Ele fez mais do que negar meu amor, ele o reduziu a cinzas antes que pudesse sequer ganhar forma.

Eu queria gritar para as árvores, para o vento, para as estrelas: “Não é maldição amar!” Mas, em 1692, tudo o que não era compreendido era heresia. O amor era uma magia proibida para pessoas como eu, um pecado imperdoável que queimava de dentro para fora. Em Salém, até o mais íntimo fragmento de verdade se transformava em combustível para as fogueiras.

Eu nunca precisei roubar a magia de ninguém. Sempre soube como amar. Era algo que existia em mim, tão natural quanto respirar, tão natural quanto o sangue que corre em minhas veias. Era instintivo, selvagem, puro, mas, para eles, parecia algo terrível.

Amar você foi como andar acorrentado em um campo de espinhos, carregando no peito uma chama que queimava cada vez mais forte, enquanto você tentava silenciá-la. Talvez o brilho que tanto o atraía fosse o mesmo que ele mais temia. Porque, no fundo, ele sabia: eu nunca precisei roubar nada. Nunca precisei de poções ou encantamentos. Nosso amor era suficiente. Era tudo de que precisávamos para enfrentar a aldeia. E, ainda assim, ele escolheu fugir.

Meu coração ardia em chamas por você, um fogo que, ao mesmo tempo em que me mantinha de pé, também me destruía. Para você, amar era algo a ser escondido. Você olhou para mim e viu fogo, perigo, viu algo que preferia rejeitar. Eles chamavam de bruxaria tudo aquilo que eu chamava de verdade.

Amar você foi como carregar um fogo eterno, uma chama amaldiçoada que nunca se apaga, mas que também nunca pode ser compartilhada com o mundo. Você me entregou às fogueiras, não porque eu era um bruxo, mas porque não suportava a ideia de encarar o reflexo da sua própria magia em mim. No fundo, você também carregava a fagulha, mas não tinha coragem de deixá-la arder.

Eu disse a você que seria impossível me salvar do fogo do inferno, porque o fogo já estava em mim, sendo alimentado constantemente pelas emoções que você despertava em meu coração. O amor que senti por você era verdadeiro, mas verdadeiro demais para um mundo que o teme. Você escolheu acreditar que meu coração era uma fogueira que consumia tudo o que tocava, quando, na verdade, ele só queria aquecer você. E, enquanto você me condenava como um pecador, enquanto dizia que meu amor era um feitiço do mal, tudo o que eu queria era te mostrar que o pecado real era viver com medo da própria luz.

Ainda assim, não consigo te odiar. Não consigo apagar o amor que carrego em meu peito, mesmo sabendo que ele arde em vão. Porque amar está no meu DNA, assim como esteve no coração de cada uma das que vieram antes de mim. Sou descendente das bruxas que eles não conseguiram queimar. Trago em mim a resistência de quem não se curva, de quem não se cala, de quem enfrenta e resiste ao fogo da guerra. Carrego a força de quem ama, mesmo sabendo que pode ser destruído por isso.

Espero que, algum dia, você aprenda a despertar a magia que existe em você, porque ela está aí, mesmo que você escolha ignorá-la. Espero que, ao olhar para dentro, você perceba que minha chama nunca quis te ferir, mas apenas te iluminar, te aquecer, te guiar. Eu quis mostrar que o amor não é algo ruim como nos ensinaram a acreditar. Quis te mostrar que não há maldição em ser quem somos, mas você virou as costas para mim. Eu quis gritar. Quis lançar ao vento todas as verdades que calei por medo. Quis dizer que você não me odiava de verdade, que seu ódio era apenas o reflexo do amor que você temia. Mas as palavras morreram na minha garganta, sufocadas pela dor de ser traído por quem ama.

Eu, o filho das estrelas, carrego comigo um dom que você insiste em chamar de maldição. Meus olhos brilham com o fogo que dizem ser do inferno, mas que é apenas amor. Amor por você, aquele que ria como a luz de um dia ensolarado, que fazia a terra florescer sob seus pés, que fazia meu coração bater na velocidade da luz todas as vezes em que nos víamos. Mas sua graça era um punhal, e seu sorriso, a corda na qual pendurei meus sonhos.

Você disse que eu era impuro, que o meu toque era uma blasfêmia. Que meu coração carregava a praga que envenenava os campos de plantação ao redor da cidade. Mas, no fundo, você tinha medo. Não de mim, mas do que viu quando me olhou nos olhos: um reflexo de algo que você não ousa admitir em voz alta nem para si mesmo. Um lampejo de magia. Um amor que você preferiu sufocar.

Quando você virou as costas para se juntar aos outros, senti o peso de séculos cair sobre mim. Não eram os gritos da fogueira que queimavam minha pele, mas o silêncio entre nós dois, impossível de superar. E, enquanto os sinos da igreja ecoavam na noite fria, eu gritei estas palavras como quem lança um feitiço: Que o amor seja livre. Que o amor também seja para os condenados.

Eu quis que fosse diferente. Quis que o amor que trago dentro de mim pudesse florescer sem medo, sem dor, sem julgamento. Mas isso nunca foi permitido, não aqui, não neste tempo.

Naquela noite, sob o céu coberto de nuvens, corri como nunca havia feito antes. Meu coração batia tão alto que parecia ecoar entre as árvores. As vozes atrás de mim me perseguiram como cães ferozes, gritando “Bruxo!”, como se essa palavra pudesse me definir. Mas eu sabia que não era a magia que eles temiam. Era o amor. O meu amor.

Você dizia que me amava, mas fugia do meu abraço. Por tanto tempo, pensei que era porque vivíamos em um tempo onde abraços entre dois garotos não eram permitidos em público. Pensei que você temia o que os outros fariam conosco se descobrissem que juntos escrevíamos juras de amor para as estrelas. Mas agora eu sei a verdade: você não foge dos outros. Nunca fugiu. Você foge de si mesmo.

Parte 1 – O despertar da magia (Para todos aqueles que esconderam a verdade de seus corações do mundo para sobreviver).

No coração sombrio da cidade, entre vielas estreitas e becos esquecidos, residia um garoto cujo destino estava selado antes mesmo de seu primeiro suspiro. Seus pais haviam falecido antes que pudesse pronunciar as primeiras palavras, vítimas de uma cruel epidemia de varíola que assolou a vila naquela época. Tudo o que lhe restara era um livro de poemas sobre ervas mágicas e conselhos escritos por seus pais, que guiariam seu caminho até a magia das estrelas.

Crescendo entre o preconceito de um povo que temia sua própria sombra, ele aprendeu cedo que o amor não era para aqueles como ele. Mas, movido pela dor da perda e pelo desejo de evitar que outras famílias sofressem o mesmo destino, ele cresceu e fundou o hospital de Salém, jurando para as estrelas que jamais deixaria que doenças separassem pais e filhos outra vez, como a varíola o separou dos seus. Mais do que um espaço de cura, o hospital se tornaria também um refúgio secreto, um santuário para bruxos e bruxas que ousassem amar à sua maneira, longe das fogueiras e do medo.

As estrelas testemunharam de perto o momento exato em que o universo me condenou a amar você.

Nos encontramos pela primeira vez em uma noite em que o frio cortava a pele e as sombras sussurravam segredos. Era um tempo em que Salém dormia inquieta, assombrada pelos seus próprios medos e preconceitos. Eu estava caminhando sozinho pelos bosques fora da cidade, podia ouvir as folhas secas sussurrando em meus ouvidos, quando senti sua presença antes mesmo de te ver.

Você estava ali, encostado no velho carvalho, com o corpo relaxado, mas seus olhos estavam gritando inquietos. A lua desenhava traços dourados em sua pele, e a forma como o vento brincava com seus cabelos fazia com que você parecesse ser de outro mundo. Nem um anjo, nem um demônio, mas como um segredo preparado para ser desvendado por mim.

“Você está me seguindo?”, sua voz cortou o silêncio.

“A floresta não é sua.”, respondi, nervoso. 

Foi ali que nossa história começou. Você provocava, eu retrucava, como dois lobos rondando um ao outro, sem saber se deveríamos compartilhar o calor de nossa existência. Você se moveu, curioso, testando a profundidade do mar de sentimentos que ainda não compreendíamos. 

“Alguns dos seus pacientes estão dizendo que você fala com as estrelas, que elas te ajudam a fazer magia para curar os doentes no hospital. Isso é verdade?”

Eu poderia ter mentido para você, mas algo em seus olhos me fez querer contar a verdade: “Elas sussurram para quem ousa ouvir.”

Você sorriu. E, naquele instante, antes que soubéssemos os horrores que iríamos enfrentar, uma chama de esperança ardeu. Uma centelha de algo proibido, mas eterno. Nosso amor nasceu na sombra do medo, mas floresceu sob a luz da lua.

Nossos encontros continuaram, furtivos diante do crepúsculo. No início, eram apenas olhares roubados durante as longas caminhadas, com toques acidentais ao passar pelas ruas, um chamado silencioso ao despertar de nossos espíritos. Mas não demorou muito para se tornar algo mais.

Em uma noite estrelada, eu levei você até o topo da colina, onde as luzes da vila pareciam simples velas à distância.

“Por que me trouxe aqui?”, você perguntou.

Eu não respondi imediatamente. Apenas levantei a mão e apontei para cima. “Porque eu queria te mostrar quem realmente somos.”

Você olhou para o céu. As estrelas brilharam como nunca, formando enigmas que só eu sabia decifrar. Era como se elas soubessem que algo sagrado estava nascendo ali.

“Você tem medo do que dizem sobre mim?”, perguntei.

Então, pela primeira vez, você segurou minha mão. “Não. Tenho medo do que eles fariam com você se descobrissem.”

Nosso relacionamento se baseava em segredos, mas também em promessas.

Eu te levava até o bosque proibido para dançar comigo entre as flores, sob a luz das estrelas. Você ria, fingindo que não acreditava na magia que cresceu entre nós. Mas eu via a verdade em seus olhos: cada vez que nossas mãos se encontravam, cada vez que nossos corpos se aproximavam no escuro, você sentia a magia correr pelos seus dedos.

“Na noite em que nos conhecemos, você disse que tinha caminhado até o bosque porque precisava de um lugar tranquilo para pensar. Por quê?”, perguntei, curioso. Senti que nossa conexão havia chegado a um nível que nos permitiria compartilhar nossas verdades mais profundas.

Seus pais e tios pertencem à família religiosa mais poderosa da vila, eles eram os responsáveis ​​pelo tribunal que julgava as “bruxas” em Salém. Você já tinha visto de perto o destino daqueles que ousavam desviar do caminho traçado por eles. Você viu seu próprio primo ser arrastado até as fogueiras pelos seus tios. Seu pai, com o olhar frio e a voz impiedosa, cravou em você uma sentença antes mesmo que cometesse o que eles chamavam de crime:

“Ai de você se ousar trazer essa vergonha para nossa casa. Prefiro um filho morto a um filho pecador.” Naquele instante, você compreendeu: para sobreviver, deveria se tornar exatamente o que eles esperavam.

“Me ensinaram desde cedo que homens não devem chorar”, você me confessou, com sua voz oscilando entre raiva e resignação. “Que devem governar o mundo e tornar as mulheres submissas. Mas eu não concordo com isso. Por isso venho aqui sempre que posso. Para ter um momento de silêncio. Para gritar os desejos do meu coração.”

Você dizia que não havia nada de perigoso nisso, mas havia. Pensávamos que a vila nunca seria capaz de descobrir. Afinal, esse era o nosso segredo. Nosso universo escondido entre a calada da noite. Mas a magia do amor não se esconde para sempre; ela é misteriosa e está sempre buscando uma maneira de despertar.

Na noite em que você me beijou pela primeira vez, o céu rugiu, a chuva encharcou a terra, e nós dois estávamos presos sob o telhado de um celeiro abandonado.

“Isso é errado?”, você sussurrou, com seus lábios a centímetros dos meus.

“Isso é real!”, corrigi. E então, você cedeu.

Foi um beijo que nunca deveria ter acontecido. Um beijo roubado do destino. Um beijo que queimou mais do que qualquer fogueira. E, quando nossos lábios se separaram, antes que qualquer hesitação pudesse surgir entre nós, antes que o medo encontrasse espaço para se infiltrar, as palavras escaparam da minha boca, cruas e inevitáveis:

“Eu te amo!”

O silêncio entre nós pesou por um instante. Seu olhar se perdeu no meu, como se estivesse buscando algo dentro de si que ainda temia nomear. O mundo inteiro parecia segurar a respiração. Então, sua voz veio, trêmula, quase como uma sugestão, mas cheia de verdade:

“Eu também te amo.”

Naquele momento, eu descobri: você aprendeu a escutar as estrelas… Se ao menos tivéssemos ficado presos para sempre no telhado daquele celeiro, talvez o fogo jamais tivesse nos consumido. E conforme o tempo se desdobrava, conforme éramos apagados dos livros de história, eu cantava para as estrelas:

Me leve de volta para a noite em que nos conhecemos
E então eu posso dizer a mim mesmo
Que diabos devo fazer
Para não andar ao seu lado

Eu tive tudo, e então a maior parte de você
Um pouco, e agora nada de você
Eu não sei o que devo fazer
Estou assombrado pelo seu fantasma

Me leve de volta para a noite em que nos conhecemos
Quando a noite estava cheia de horrores
E seus olhos cheios de lágrimas
Quando você ainda não tinha me tocado.”
– Lord Huron (The Night We Met).

Parte 2 – Sob a maldição da traição

Deitados na cama, com os dedos entrelaçados, eu te perguntei: “Você fugiria comigo? Podemos ir para um lugar onde ninguém nos encontre!” Minha voz era um sussurro carregado de esperança, medo e amor.

Você suspirou, com o olhar perdido no teto. “E para onde fugiríamos? O mundo é cruel demais. Nunca haverá um lugar seguro para que possamos ficar juntos.”

“Então crie coragem, fique e lute comigo! Nós não precisamos de ninguém além de nós dois.”

“Eu queria acreditar nisso…” Por um instante, vi algo em seus olhos, uma faísca de coragem, talvez. Mas você hesitou. Sorriu, como se minha pergunta fosse uma piada, e respondeu: “Somos eu e você para sempre. Você é a minha alma gêmea!” Você me beijou, mas havia algo estranho naquele beijo apressado. Um gosto de cinzas. A maldade estava escondida em seu sorriso, que cortou meus lábios como uma lâmina, e então eu soube. Algo estava errado.

“Por que está me olhando assim?” perguntei, com o coração chorando. E, diante do meu olhar insistente, você finalmente confessou.

Disse que foi descoberto por quem dizia ser nosso “amigo”. Que ele te viu comigo, que viu o jeito como a gente sorria, como quem carrega o brilho verdadeiro das estrelas nos olhos toda vez que nos encontrávamos… Mas esse garoto que nos viu não era um cidadão da vila qualquer. Era um bruxo assim como eu, alguém que também havia “amado diferente” no lugar e na época errada.

Ele não era daqui, tinha vindo de outra cidade em busca de abrigo e proteção, depois de perder seu coven para a intolerância. Por ser um forasteiro em Salém, foi o primeiro a ser interrogado como suspeito, julgado com olhares tortos e palavras carregadas de ódio.

Você me contou que, antes mesmo dele encontrar refúgio entre nós, ele já havia sido capturado pelas autoridades de Salém. Submetido a sessões desumanas de lavagem cerebral, arrancaram dele tudo o que o tornava livre. Torturaram sua mente e seu corpo como se a violência pudesse apagar o amor que nele habitava. Disseram que ele estava doente, até que começou a acreditar que havia nascido sujo, impuro, a personifação do pecado original, o próprio inferno na Terra.

Então o obrigaram a passar por algo que hoje, com todas as letras manchadas em tons de vermelho escarlate sangue, só posso chamar de terapia de conversão, um ritual bárbaro travestido de salvação, mas que existia apenas para destruir o espírito da vítima.

Fizeram-no acreditar que só seria perdoado, só seria aceito no Reino dos Céus, se denunciasse outros como ele. Foi isso que eles prometeram: purificação em troca de traição. E ele, quebrado, acreditou. Passou a revelar nomes de bruxos e bruxas da vila, amores secretos, toques proibidos, sonhos escondidos. E você estava entre os escolhidos.

Foi então que, tomado pelo pânico e pela culpa, você decidiu fugir daquilo que sentia por mim. Achou que, se apagasse a magia do nosso amor, estaria a salvo da fogueira.

Foi aí que ele te procurou… E você, fraco, se deixou levar. Você me traiu com ele. Não por desejo, mas por medo. Você se agarrou a sombra mais distorcida do que nós poderíamos ter sido, achando que, ao tocar outro corpo, destruiria o que havia sido construído entre os nossos.

Mas aquilo era uma armadilha. Uma isca. Ele havia sido enviado pela sua família justamente para isso. E você caiu igual um patinho.

Com a voz embargada, você me disse que, depois da emboscada, ele desapareceu. Que, quando as autoridades voltaram para buscá-lo e exigir novos nomes, ele fugiu. Fugiu com medo da fúria das estrelas, pois sabia que, ao trair um filho delas, havia violado a própria natureza.

Bruxos não são apenas seres mágicos. São humanos também, mas com o dever de sustentar a conexão de amor entre o céu e a Terra.

As estrelas não punem com gritos de desprezo, caos ou castigos terrenos. Elas silenciam. Elas apagam nomes e histórias da memória do universo. E ele temia ser esquecido por elas, banido do ciclo da vida, condenado a vagar no limbo para sempre como um corpo sem constelação, sem felicidade, sem magia. E te deixou sozinho.

Mas eu nunca te abandonaria. Eu teria ficado. Eu teria me entregado para que você pudesse fugir…

Depois, você me contou como a sua captura se desenrolou: “Você acredita que pode esconder sua alma do Senhor? Meu neto, sua alma ainda pode ser salva… mas, para isso, é preciso que se livre daquilo que te corrompeu.”

Você engoliu em seco. “Eu… eu não sei do que o senhor está falando.”

Seu avô, o padre da cidade, o mesmo que havia adotado seu pai depois de encontrá-lo abandonado na porta da igreja em uma noite tempestuosa, se aproximou em tom ameaçador: “Não minta para mim. Os olhos de Deus veem tudo… Deus no céu e eu na Terra.” Seu corpo inteiro tremeu em pânico quando a palma da mão dele estalou contra o seu rosto. Você recuou, levando a mão à bochecha avermelhada, os olhos marejados de medo, você estava me contando como havia me traído e, mesmo assim, tudo o que eu queria era te abraçar e nunca mais soltar.

“Então faça o que precisa ser feito. Ou você o denuncia… ou será queimado junto com ele quando o encontrarmos. Você pode sair como um herói. E ainda ganhará uma recompensa: finalmente será reconhecido como membro oficial da elite religiosa e da nossa família.”

E foi então que, em um ato de desespero e covardia, você revelou o meu segredo. Para salvar a si mesmo, você me entregou como uma moeda de troca. Disse a eles que eu havia te encantado com magia, usado poções do amor durante meses para aprisionar seu coração. Mas a pior traição não foi essa mentira. Você contou quem eu era.

“Eles sabem que você é filho das estrelas”, você disse com frieza, evitando os meus olhos. “Sabem que você recebe seus poderes por meio de rituais, dançando com elas. Que, quando vocês, os tais ‘bruxos do amor’, morrem, renascem como novas estrelas no céu, para servir os bruxos que ainda vivem na Terra. Foi isso que contei.” Meu corpo inteiro tremeu.

“Tu trais o Filho das Estrelas com um beijo?” (Lucas 22:48). Minha voz saiu cortante, repleta de incredulidade e angústia, como se cada um dos meus órgãos estivesse à beira de um colapso. “Como pôde fazer isso comigo? Com a gente?” Confiei a você o meu maior segredo, algo que guardei até mesmo das paredes do meu quarto. E você o tratou como uma moeda barata. “Você… você me condenou à fogueira.”

Sem remorso, você apenas se levantou da cama e caminhou até a porta. Você nunca planejou me pedir desculpas, não é mesmo? Lá fora, as luzes quentes das tochas tremiam contra as janelas. Batidas brutais ecoaram pela estrutura da minha casa, e as vozes estridentes dos aldeões começaram a preencher o silêncio da noite. Você abriu a porta sem titubear. “Ele está no quarto. Podem levá-lo.”

Naquele instante, senti meu coração quebrar em dezenas de pedaços. Nunca pensei que você pudesse ser capaz de tamanha covardia. Você destruiu o que éramos, ou o que eu pensei que fossemos. Nunca tinha levado ninguém para dançar comigo e com as estrelas. Eu confiei em você como jamais confiei em alguém antes. E tudo bem ter me traído. Mas trair as estrelas, trair o nosso amor e a nossa magia? Isso não posso perdoar. Você me fez acreditar que cometi um pecado, mas, no final, foi você quem cometeu o maior erro de todos.

Dizem que os sete pecados capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, orgulho e preguiça, são as maiores ofensas à virtude humana. Mas mesmo que eu os cometesse todos de uma só vez, ainda assim não seria um crime pior do que te amar. Você foi o “pecado” mais tentador, o mais impossível de resistir. Eu acreditei que sua alma carregava a mesma luz que a minha, mas hoje entendo que era apenas o reflexo do fogo que você alimentou para me destruir. Nunca imaginei que o meu amor, a pessoa com quem eu dividia sonhos, seria quem me trairia primeiro, sem nem pestanejar. Afinal, quem precisa de inimigos quando divide a cama com você?

Antes que eles me agarrassem, ouvi um sussurro vindo do céu. Era suave como a brisa do vento que canta entre as árvores, mas claro como uma promessa: “Fuja por ali, nós vamos te ajudar.” Eram as estrelas.

Eu me afastei da cama, sentindo o coração martelar dentro do peito e um embrulho no estômago ao lembrar que, há pouco, havia estado ali com o homem que continuava buscando me trair. Caminhei até a janela do meu quarto, com os dedos trêmulos na madeira fria. A chuva batia contra o vidro, e o vento zunia lá fora. Respirei fundo, abri a janela e pulei.

Eu corri. Mas a terra estava molhada pela chuva, e o vento cortava como a lâmina da sua traição. As árvores ao meu redor eram sombras escuras, mas as estrelas brilhavam acima, guiando meus passos. Atrás de mim, as vozes dos aldeões se tornavam cada vez mais altas, e o som dos cachorros de caça ecoavam na floresta. Mas a chuva era implacável, e o chão traiçoeiro. Tropecei em uma raiz escondida sob a lama e caí com força. Minha visão se turvou por um momento, mas pude sentir as vibrações das pegadas que se aproximavam.

“Por favor, estrelas”, sussurrei, olhando para o céu nublado. “Não por mim, mas pelos que ainda precisam de mim. Salvem-nos.” Então, abaixei a cabeça e murmurei: “Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” (Lucas 22:42). Nada aconteceu. O silêncio devorou minhas palavras. Por um instante, pensei que até mesmo as estrelas haviam me traído. Mas então, ouvi suas vozes suaves sussurrando ao vento. Elas me contaram meu propósito, revelaram que meu sacrifício salvaria milhares de vidas no futuro. “Eu sou teu servo fiel!”, respondi.

“É assim que o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida para resgatar a multidão.” (Mateus 20:28)

Fui capturado. Algemaram minhas mãos com cordas ásperas, as mesmas que você havia criado para bloquear minha magia, e me arrastaram pela aldeia. Me espancaram. Golpes brutais caíram sobre meu corpo a cada passo que eu dava. Chutes. Cotoveladas. Chicotadas. Seguidos por risos cheios de crueldade. Quando finalmente me largaram na praça, rostos cheios de ódio me encaravam como se eu fosse a encarnação do mal. O gosto metálico do meu sangue encheu minha boca. As pessoas gritavam “Bruxo!”, cuspindo essa palavra como um veneno. Me questionei se ao menos eles sabiam qual era o meu nome. Mas isso não importava, a única coisa que ardia em mim era amor, amor que eles nunca entenderiam.

Na praça, no centro da cidade, me amarraram à fogueira. A multidão fervilhava de raiva, de medo, de ignorância. E lá estava você, no meio deles. Seus olhos estavam fechados, suas mãos trêmulas, seu suor estava escorrendo pelo seu corpo como uma cachoeira. Você parecia se engasgar com os próprios pensamentos. Eu queria acreditar que aquilo era arrependimento ou culpa. Que, no fundo, algo em você ainda me amava. Mas como posso acreditar nisso, depois de tudo o que você me fez passar? Eu sabia a verdade. Você escolheu salvar a si mesmo. Escolheu se curvar ao medo. Escolheu me trair.

“Por que o amor de vocês é digno, e o meu não?” perguntei em voz alta, encarando o padre que liderava o julgamento. “Vocês têm tanto medo do amor porque não podem controlá-lo. Mas deixem-me dizer uma coisa: ele não pode ser apagado. Nem pelas chamas que preparam para mim.”

O padre deu um passo à frente, com os olhos brilhando de ódio. Sua voz ecoou pela praça: “Cale essa boca, agora! Você não é filho das estrelas coisa nenhuma, rapaz. Pare de contar mentiras! Confesse agora que você vendeu sua alma a Satanás!”

Por um momento, o silêncio tomou conta da multidão, ficaram surpresos com minha coragem em enfrentá-los. Todos esperavam pela minha resposta, ansiosos por uma confissão que pudesse justificar o ódio que carregavam. Mas eu ergui o rosto para o céu, mesmo que as nuvens escondessem as estrelas, e disse: “Recuso-me a ir contra tudo o que me foi ensinado. Contra minhas crenças. Meu amor, minha magia, minha conexão com as estrelas, nada disso é maldição. É quem eu sou. E não vou negar isso, nem mesmo para salvar minha vida.”

Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra. (João 8:7)

Por um breve instante, vi o desconforto em alguns rostos. Vi mães e pais que um dia trouxeram seus filhos para que eu os curasse. Vi jovens que conheciam o conforto das minhas palavras, a gentileza das minhas mãos, o carinho e o cuidado em meus olhos. Mas a ignorância era mais forte do que a memória. A expressão do padre endureceu, e ele ergueu a mão, apontando para mim como se fosse o próprio julgamento divino: “Então não temos mais o que fazer aqui. Você está condenado a ser queimado na fogueira com seus iguais pelos seguintes crimes:

  1. Disfarçar-se como curandeiro durante anos e torturar os aldeões de Salém com magia proibida, invadindo seus sonhos e envenenando suas esperanças com feitiços sussurrados ao vento da meia-noite;
  2. Manipular, envenenar e corromper lentamente o corpo, o coração, a mente e a alma de um morador inocente com uma poção do amor, prolongando seu feitiço maligno por meses, aprisionando-o em um cativeiro tão profundo quanto às raízes do carvalho mais antigo da aldeia;
  3. Renegar os mandamentos de Cristo, entregando-se de forma devassa e irrestrita ao Senhor do Inferno, dançando nu como no dia em que nasceu sob o céu avermelhado de sangue, enquanto o pecado fluía como vinho em taças profanadas pelos seus desejos impuros;
  4. Conspirar contra a ordem sagrada em rituais demoníacos, manchando o solo fértil de nossas plantações com o sangue ainda quente de animais sacrificados, sequestrados de nossos rebanhos sob a vigília da lua cheia;
  5. Seduzir as jovens garotas da aldeia, prometendo-lhes liberdade de expressão, conhecimento proibido às mulheres, e rebeldia ao aprender a ler e escrever, ao custo de suas almas inocentes, enquanto semeava heresias que, como ervas daninhas, dilaceram a fé da comunidade com dúvidas sem respostas;
  6. Jurar em nome das estrelas em vão, proclamando-se filho delas, como se pudesse reescrever a ordem natural do destino, confrontando os céus e desafiando a harmonia cósmica com sua audácia maldita;
  7. Ser o líder notório do maior coven de bruxos que este mundo já viu, um herege responsável por abrir portais proibidos e trazer entidades demoníacas para este plano, ameaçando corromper a criação divina com forças que nem mesmo os anjos ousam nomear.”

A lista continuava a crescer… Mas tudo em que eu conseguia pensar era que nenhuma daquelas acusações era verdadeira. Eu era inocente, mas ninguém acreditava em mim. Ninguém ali estava interessado na verdade, apenas em alimentar seus próprios preconceitos. O que mais me machucava não era a sentença, e sim a ausência de um amigo de verdade, alguém que acreditasse em quem eu realmente sou, que agisse como um advogado e questionasse as provas exageradamente falsas deles.

O padre deu mais um passo em minha direção, sua voz soava como um trovão que rasgava os gritos da multidão: “Como você ousou nos enganar todos esses anos com esse disfarce de bom samaritano, quando na verdade é um anjo caído?! Esta noite, você deixará de fazer mal à nossa cidade, para sempre!”

A multidão explodiu em gritos de aprovação. Minhas mãos, presas por cordas, apertaram meus punhos enquanto meu coração sussurrava em desespero para as estrelas mais uma vez. “Por favor, eu preciso do seu abraço.” Foi quando meu espírito se encheu de magia, de amor e de coragem para gritar a verdade que habitava em meu coração desde que nasci: “Por causa das suas ações, de condenações injustas como estas” – continuei, olhando diretamente para o padre – “as estrelas pararam de brilhar à luz do dia. Elas dançavam conosco, mas se esconderam com medo. Mas ainda há tempo para mudar. Ainda há tempo de ver a magia no amor.” E naquele momento, percebi algo. Mesmo que meu corpo fosse consumido pelas chamas, minha magia, meu amor, meu sacrifício, jamais seriam esquecidos. Eles viveriam em todas as gerações de filhos das estrelas que viriam depois de mim.

As estrelas não apareceram, mas eu sabia: elas estavam lá. Sempre estiveram lá para mim, me acompanhando em cada degrau que eu subia. E, enquanto a multidão gritava que o amor que eu carregava era contra a natureza, contra a vontade de Deus, contra tudo o que era “puro”, eu pensava: o que pode ser mais puro do que amar alguém com todo o coração como eu te amo?

“Não chore esperando que suas lágrimas mudem seu destino”, você sussurrava em meio à plateia. Mas como eu poderia não chorar? Dividi com você sonhos que nunca revelei a mais ninguém, dançamos juntos sob a luz das estrelas, e você fez parecer que tudo isso era real. Que o amor que tínhamos era algo forte o bastante para sobreviver. Mas você me provou que eu estava errado. E agora, essas lágrimas que você tanto teme ver cair no chão não são apenas de tristeza, são de amor que ainda arde dentro de mim, mesmo depois de tudo. Mesmo depois da sua traição. Não há maldição ou sofrimento maior do que amar alguém que não ousa amar de volta em voz alta.

Parte 3 – Condenado pelas chamas eternas da injustiça

Naquela sexta-feira, enquanto os sinos ecoavam pela aldeia e o cheiro de fumaça enchia o ar, você gritou: “Eu te odeio! Eu tenho nojo de você! Eu tenho nojo da sua magia e do seu amor!” Seus olhos brilhavam com ódio, mas eu sabia que o medo estava por trás de cada insulto. Foi quando eu percebi: o amor não é para os condenados. Não porque somos aberrações anormais, mas porque os que nos condenam não sabem como enxergá-lo. E, enquanto sua voz rasgava o ar como aço, meu coração continuava queimando. Agora, a lenha era a minha dor.

A multidão, agitada, gritou: “Queimem o bruxo!”

Disseram que eu, junto com outros acusados de praticar magia proibida, seríamos executados. Era o dia das almas condenadas, eles diziam. Na fogueira, enquanto eles gritavam “Bruxo!”, eu gritei outro nome: o seu. Cada sílaba foi arrancada da minha garganta como uma confissão, como se alguém estivesse arrastando as unhas em um quadro da sala de aula, um som que rasga os ouvidos e dilacera a alma, uma maldição feita de amor e poesia.

O padre virou para você e perguntou: “Meu neto, você tem algo mais a dizer para este condenado, que tanto te atormentou?”

Você hesitou, mas sua hesitação durou apenas um instante. Seus olhos me evitaram, e então você respondeu: “O amor não é para os condenados!”

Me pergunto se você teria conseguido dizer isso se estivesse olhando no fundo dos meus olhos… Com a multidão ao seu lado, você jogou tomates em mim. Aquele gesto era mais doloroso do que qualquer tocha ou corrente. Você era a caça que se fingia de caçador, assim como Judas quando beijou o rosto de Jesus minutos antes de traí-lo.

O carrasco caminhou lentamente até mim, usando uma máscara de couro preto que ocultava seu rosto. A máscara tinha o propósito de desumanizá-lo, para que ele não fosse visto como um homem comum, mas como um instrumento do divino, ou do medo. Um rosto sem expressão, uma figura sem identidade. Mas para mim, a máscara simbolizava o próprio ódio: algo que se esconde nas sombras, que não ousa encarar a verdade.

“Mostre-me seus olhos!” gritei, enquanto ele se aproximava. “Seja homem o suficiente para me olhar enquanto faz isso! Tire a sua máscara!”

Ele parou na minha frente por um momento, pensativo, antes de responder com uma voz grave: “Não. Você quer me enfeitiçar para te soltar.” O carrasco inclinou-se para acender a fogueira, suas mãos eram firmes e indiferentes. A madeira crepitava, e as primeiras chamas começaram a dançar, famintas. Ele se ergueu e olhou para mim novamente, com sua voz cortante como uma foice que desejava esmagar minha esperança: “Quais são as suas últimas palavras? Defenda-se!” – gritou como quem dava uma ordem, acreditando possuir o controle do meu destino.

“Tu não tens poder sobre mim, além do que te foi concedido pelo Alto. Por isso, quem me entregou a ti é aquele que tem o maior pecado.” (João 19:11)

Eu respirei fundo. Mesmo sabendo que nada que eu dissesse poderia alterar o que estava prestes a me acontecer, olhei para ele com minha voz ecoando com força pela praça, e gritei para todos, mas principalmente para você, enquanto desejava que o mundo inteiro pudesse me ouvir:

“Jamais venderia minha alma à escuridão. Ela nunca me pertenceu. Sempre foi dele. Meu coração sempre foi dele, desde o momento em que nossos olhos se cruzaram pela primeira vez. Essa foi minha história de amor, minha verdade, minha maldição. E foi justamente isso que me destruiu. Foi isso que me condenou para sempre. Mas saibam que minha magia não pode ser controlada, porque o amor é indomável. E eu não olho para você com ódio. Não. Eu olho com tristeza. Porque percebi que já estou no inferno. Não é o fogo que me consome, nem as correntes que me prendem. O verdadeiro inferno é amar alguém que escolheu me abandonar e amaldiçoar. Mas, se vocês querem saber: não, eu não me arrependo de nada. Se tivesse que escolher cem vezes entre viver esse amor ou nunca tê-lo sentido, ainda assim o viveria com a mesma intensidade. Porque foi real. Porque foi meu. Porque foi nosso, ainda que o medo o tenha transformado em uma sentença de morte. E também não me arrependo de curar os feridos desta cidade, de aliviar a dor daqueles que mais precisavam de mim, com a ajuda das estrelas. Se isso é um pecado, então queimar na fogueira nunca foi tão digno. Por favor, não me chamem de maluco! Não me julguem por ser bruxo! Sou apenas um garoto confessando seu amor por outro garoto. É isso que tanto temem? Vocês estão julgando e queimando tudo aquilo que não conhecem. Mas essa é a beleza da natureza: a magia vive dentro de todos nós. Aceitem o amor, antes que seja tarde demais.”

“E de toda a espécie de sedução do mal, para os que são destinados à perdição, por não terem acolhido o amor da verdade, amor que os teria salvo. Eis por que Deus lhes envia uma potência enganadora, que os leva a crer na mentira. Desse modo serão condenados todos os que não creram na verdade, mas se deleitaram com a injustiça.” (2 Tessalonicenses 2:10-12)

A multidão gritou ainda mais alto, sem piedade: “Queimem-no! AGORA!”

Enquanto as chamas rugiam ao meu redor, ergui o olhar para o céu nublado. Fiz um último pedido às estrelas, em um sussurro: “Deixem-me salvar aqueles que não têm mais ninguém. Deixem meu amor se tornar magia, não para vingar e ferir, mas para proteger e curar. Que minha luz brilhe, mesmo quando eu for reduzido a cinzas.”

Foi então que me lembrei de um dos ensinamentos mais valiosos que minha mãe deixou para mim, registrados entre as páginas amarelas do livro que me acompanhou por toda a vida. Ela repetia isso sempre, como uma prece, e agora eu entendia seu verdadeiro significado: “Quando partimos deste mundo mortal, não levamos nada além das ações que praticamos ao decorrer de nossas vidas, sejam elas boas ou más. Nossos pertences terrenos não nos servem de nada no reino dos céus.” Eu havia lido essa frase tantas vezes, que quase podia ouvi-la sendo sussurrada pelo vento. O fogo poderia consumir meu corpo, mas jamais levaria o amor que plantei nos corações daqueles que cruzaram meu caminho. Porque um coração que ama com verdade nunca se desfaz em cinzas.

“Lembra-te que és pó, e ao pó voltarás.” (Gênesis 3:19)

O carrasco soltou uma gargalhada vilanesca e respondeu: “Hahaha! Nada pode te salvar agora, bruxo!” Então, sem aviso, ele me golpeou com um soco brutal no rosto. A dor explodiu como o fogo sob minha pele, e senti o gosto amargo de sangue inundar minha boca mais uma vez. Quando cuspi, senti algo se desprender, alguns de meus dentes caíram no chão causando um tilintar assombroso, ecoando como sinos fúnebres na noite.

Mas ele estava errado. As chamas se ergueram ao meu redor, e, naquele instante, algo mudou. Meu corpo parecia desacelerar enquanto o mundo começava a brilhar com uma luz celeste, como se as estrelas tivessem ouvido minhas orações. O amor que carregava dentro de mim, por aqueles que me amavam, por quem era ferido e oprimido, começou a queimar. Não era um fogo de vingança. Era uma chama de cura. Uma luz explodiu, e os gritos da multidão foram silenciados. Não por destruição, mas por cura. Os feridos foram curados e os caídos se levantaram. Meu amor, o mesmo amor que você rejeitou, tornou-se magia.

E naquele momento, percebi a verdade: você nunca foi digno do amor que te ofereci. Porque o verdadeiro amor não trai, não entrega, não se esconde, não abandona. Você pode ter me denunciado para as autoridades de Salém, mas não chegou nem perto de me fazer parar de acreditar no amor verdadeiro. Você foi a prova viva de que mesmo os mais doces juramentos podem ser mentiras faladas da boca para fora. Que promessas feitas sob a luz das estrelas podem se desfazer facilmente com a fumaça das fogueiras. Você, que eu tanto amei, foi quem me ensinou que o amor pode ser a maior arma para destruir um coração.

“Ele foi ferido por nossas transgressões, esmagado por nossas iniquidades; e pelas suas feridas fomos curados.” (Isaías 53:5)

Parte 4 – O legado do amor

“Ó estrelas, por que me abandonaste? Em vossas mãos entrego meu espírito, com a certeza de que cumpri minha missão aqui. Ó estrelas, perdoem-nos, eles não sabem o que fazem.” – Mateus 27:46 e Lucas 23:34; 23:46.

Desenho: Hamabille Ghellere, minha grande amiga e leitora beta.

Quando as chamas finalmente engoliram meu corpo, a terra pareceu suspirar junto comigo. Um silêncio pesado desceu sobre a multidão, como se as estrelas lamentassem a injustiça que o mundo acabara de presenciar. Os gritos cessaram, os olhares de julgamento se desviaram incrédulos, e até mesmo o céu pareceu se curvar em luto. Mas, naquele instante, minha magia foi libertada, e o amor que carreguei, tão rejeitado em vida, iluminava a escuridão como o despertar de uma estrela nascente, lembrando a todos que o verdadeiro pecado não era o meu, mas deles. Nesse momento, um terremoto sacudiu Salém. Todos fugiram, aterrorizados, dizendo: “Este era realmente o filho das estrelas!” (Mateus 27:54)

O que mais me impressiona é que essa mesma história já havia acontecido antes, séculos atrás. A tragédia ocorrida em Salém, onde vidas foram injustamente queimadas, carrega um peso semelhante ao da crucificação de Cristo, ocorrida também em uma sexta-feira, em 3 de abril de 33 d.C. Desde sua morte, já se passaram quase dois mil anos, e ainda repetimos os mesmos erros bárbaros daquela época: histeria coletiva, julgamentos apressados, condenações com evidências frágeis e alienação alimentada pela cegueira do fanatismo puritano. Somos rápidos em apontar o dedo, mas lentos em oferecer compreensão. Somos péssimos em olhar para o próprio umbigo.

E, assim, continuamos a queimar tudo o que não conseguimos entender. Quando condenamos o amor, condenamos também a nossa própria humanidade. Ainda vivemos cercados por muros invisíveis que separam os “dignos” dos “indignos”, os que merecem amor e os que, como eu, são condenados como pecadores apenas por seguirem a própria verdade. Porque amar é, em sua essência, um ato de coragem. E talvez seja exatamente isso que os assusta: a vulnerabilidade que o amor exige. Enquanto nos recusarmos a aceitar essa liberdade, estamos presos a um ciclo de medo, intolerância e destruição.

O amor que carrego dentro de mim é mais forte do que o fogo, mais eterno do que qualquer julgamento que os aldeões proferiram contra o meu coração. Meu perdão era a última magia que eu poderia oferecer para você. Ele era para você, para mim, para todos nós. Esse era o legado que eu queria deixar para Salém e para o resto do mundo. Eu te perdoei no mesmo instante em que descobri sua traição. Não porque você merecia, mas porque o amor que eu carregava era maior do que a dor que você me causou. E esse amor, a mesma magia que vocês tanto temiam, continuaria a existir, mesmo quando meu corpo fosse reduzido a cinzas.

“Eu lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês!” (Mateus 5:44)

Meu amor era uma magia que eles não podiam destruir. Mesmo que queimassem meu corpo, mesmo que apagassem meu nome dos registros da cidade, ele era eterno, mais poderoso do que qualquer insulto. Meu amor viveria para sempre nas estrelas, para quem quisesse enxergar.

Quando o fogo da fogueira cessou, tudo o que sobrou foram cinzas. Eles as coletaram com mãos frias, com olhares vazios, e as jogaram nas profundezas do oceano, acreditando que estavam me apagando para sempre. Mal sabiam que eu estava apenas esperando o tempo certo para renascer como uma fênix.

Ao todo, aproximadamente 250 pessoas foram acusadas injustamente em Salém. Vinte e uma foram mortas em 1692, contando comigo. Em maio do ano seguinte, outros cinco prisioneiros, acusados de bruxaria, morreram nas celas, consumidos pelas péssimas condições de estrutura física das prisões e pela negligência dos oficiais que os condenava lentamente. As fogueiras pararam de queimar… mas as cicatrizes que deixaram nunca foram apagadas totalmente. Esses são apenas alguns dos números documentados, mas podem haver muitos outros. Muitos registros foram perdidos, destruídos ou simplesmente nunca documentados, até os próprios arquivos foram vítimas da manipulação histórica.

Eu fui o último bruxo a ser queimado. Mas apagaram minha morte dos registros. Não queriam que o “escândalo” que causei se espalhasse pelo mundo, provocando o caos. Mas o caos já havia sido lançado aos quatro ventos, e estava queimando meus irmãos e irmãs ao redor do mundo. Afinal, lembrem-se: a história que conhecemos é sempre a versão de quem vence a guerra.

A maioria das pessoas conhece apenas a caça às bruxas em Salém porque essa história é constantemente retratada em livros, filmes, músicas e peças teatrais. Mas se você acha que esse episódio aconteceu somente na Colônia Inglesa de Massachusetts, está enganado. Os historiadores apontam números aproximados de outras regiões que também foram palco dessa barbárie:

  • Outras colônias americanas (século XVII): Cerca de 40 a 50 mortos;
  • Sacro Império Romano-Germânico (Alemanha, Áustria e Suíça) – entre os séculos XVI e XVII: Estima-se que entre 20.000 e 25.000 pessoas tenham sido mortas durante os julgamentos por bruxaria; 
  • Pays de Vaud (Suíça) – séculos XVI e XVII: A Suíça, embora com laços históricos com o Sacro Império, teve perseguições severas. Na região de Vaud, por exemplo, ocorreram casos brutais, contribuindo para um total de 3.000 a 4.000 execuções em todo o país europeu; 
  • França – séculos XVI e XVII: 5.000 a 10.000 mortos;
  • Países Baixos (Holanda e Bélgica) – séculos XVI e XVII: Cerca de 1.000 a 1.500 mortos no total, sendo que a maioria das execuções ocorreu na região que hoje é a Bélgica;
  • Escócia – séculos XVI e XVII: O julgamento das Bruxas de North Berwick, em 1590, resultou em cerca de 70 mortos, mas o total de vítimas em toda a Escócia chegou a 2.500 a 4.000 mortos;
  • Espanha e Portugal – séculos XV e XVIII: As Inquisições Espanhola e Portuguesa foram responsáveis por 500 a 1.000 mortos;
  • Itália – séculos XVI e XVII: Entre 100 a 1.000 mortos;
  • Polônia, Rússia e Hungria – séculos XVI e XVII: Entre 2.000 a 5.000 mortos;
  • Suécia (1668-1676): O julgamento das Bruxas de Torsåker resultou em 71 vítimas; 
  • Noruega, Dinamarca, Finlândia e Islândia – séculos XVI e XVII: Cerca de 2.500 mortos;
  • América Latina (período colonial): A Espanha perseguiu suspeitos de bruxaria no México, Peru, Brasil e outras colônias, resultando em menos de 500 mortos documentados.

Não trago esses números para que haja uma competição macabra entre quem matou mais pessoas. Não tenho intenção de apontar o dedo, isso foi o que vocês fizeram e ainda fazem com pessoas como eu. Minha intenção é fazer vocês se perguntarem quantas histórias de amor como essa foram apagadas dos livros de história…

Total de condenados no mundo por “praticarem bruxaria”: Entre 200.000 e 500.000 pessoas.

Total estimado de mortos: Entre 40.000 e 60.000 vidas inocentes perdidas (20% a 30% dos condenados). Pode parecer pouco quando comparado ao número de acusados, mas ainda assim são muitas vidas destruídas. Pense em quantas crianças cresceram sem seus pais para protegê-los deste mundo perverso. Pense em quantos pais tiveram que enterrar seus filhos porque nunca mais conseguiram voltar para casa… Quantas pessoas mais sofreram com esse mal antes que vocês finalmente enxerguem a verdade?

Grande parte das vítimas eram mulheres, estima-se entre 75% a 85%, perseguidas e marginalizadas por uma ordem patriarcal que as via como ameaça, temendo o poder que carregavam em seus corações. O que é irônico, pois muitas eram apenas viúvas, curandeiras e parteiras.

Os pedidos de desculpas oficiais de Salém demoraram anos para acontecer. Anos demais, na minha opinião...

  • 1702: Os julgamentos foram declarados ilegais. Este foi o primeiro passo formal para deslegitimar as condenações;
  • 1711: As autoridades aprovaram uma lei com o objetivo de pagar uma indenização para as famílias das vítimas, concedendo compensações aos herdeiros dos executados. No entanto, nem todas as vítimas dessa injustiça foram incluídas no ato. Como se isso bastasse para apagar todo o sofrimento causado. Como se o ouro pudesse ressuscitar seus entes queridos assassinados.
  • 1957: O Estado de Massachusetts emitiu um pedido oficial de desculpas, um reconhecimento mais amplo dos erros históricos cometidos.
  • 2001: Somente quatro séculos depois dos episódios em Salém, o Estado finalmente absolveu todas as vítimas restantes que ainda não haviam sido formalmente reconhecidas como inocentes.

Por que será que levou tanto tempo? Talvez porque era mais fácil apagar nomes dos registros do que assumir a culpa. Talvez porque o arrependimento nunca veio de verdade, apenas a necessidade de limpar as mãos manchadas de sangue. Nosso sangue. Mas será que a justiça tardia realmente pode ser chamada de justiça?

Se hoje eu te olhasse nos olhos, eu não seria capaz de te reconhecer. Você se juntou à sua família e queimou todas as árvores do nosso bosque secreto. Você herdou um colar com uma cruz banhada a ouro e o carrega no peito como um troféu, como se finalmente tivesse conquistado um lugar entre eles. Você finalmente foi aceito. Não por quem você era, mas pelo que desejava ser. Pelo papel teatral que desempenhou tão bem. Se olhar para si mesmo no espelho, será que você se reconheceria? Será que o garoto que tanto amei ainda luta em algum lugar dentro do seu peito, tentando fugir e se rebelar? Ou será que ele simplesmente aceitou se calar para sempre?

Minhas chamas não eram de destruição, mas de transformação. O amor que vocês tanto temem, o amor que vocês planejaram silenciar, viverá em cada estrela que brilha no céu e em cada coração que ousar amar sem medo. Eu acredito que o amor sempre será mais forte, capaz de vencer até o ódio que nos cerca, capaz até mesmo de encerrar guerras. Mas agora vejo que meu amor por você foi apenas uma sentença que assinei com minhas próprias mãos sem ler as letras miúdas.

Eu tentei te salvar. Tentei te mostrar que nosso amor era uma luz que poderia atravessar até mesmo as trevas que escravizavam este mundo mortal. Mas, ao entregar o nosso amor, você também se entregou às sombras do destino. Você escolheu o medo e agora vive preso a ele. Você depende dele para sobreviver, enquanto eu escolhi o amor, mesmo sabendo que ele me levaria às chamas da ruína.

O meu amor nunca foi capaz de seguir as regras. Ele não sabia ser pequeno, discreto ou silencioso. Ele foi maior do que o medo, maior do que as fogueiras de intolerância que o mundo acendeu contra nós. O meu amor era rebelde. Indomável. Ele não pedia permissão para existir, não se curvava diante de julgamentos.

Talvez fosse por isso que você me traiu. Porque amar alguém com um amor tão feroz é como tentar segurar o vento nas mãos. Você não sabia como lidar com a luz que emanava de nós dois, então escolheu o caminho mais fácil. Escolheu apagar a chama do nosso amor. Escolheu me trair. Escolheu silenciar a minha magia. E, mesmo assim, penso que não pode ser errado amar alguém do jeito que eu te amei. O amor não deveria ser um pecado. Como algo tão puro pode ser visto como um crime? Como a luz que eu via em seus olhos pode me condenar ao fogo do inferno? O que eles chamam de pecado, eu chamo de verdade. Mas eles nunca entenderam. E talvez você também nunca entenda.

Na última página do meu diário, um risco a consumiu no instante em que fui capturado, interrompendo as palavras que ainda desejava escrever. Mas as estrelas cuidaram para que minhas palavras de amor e angústia chegassem até você. Para que você pudesse aprender que trair quem ama não é o certo a se fazer, que o amor é uma magia preciosa, única e indestrutível.

Talvez, em outro tempo, tudo o que aconteceu entre nós possa ser diferente. Talvez nossas almas não precisem fugir ou trilhar caminhos diferentes. Talvez possamos existir sem medo. Mas isso não foi no nosso tempo. Mesmo assim, saiba: o amor que eu senti por você era real. E, como tudo que é verdade, ele encontrará uma forma de viver, de florescer, em um tempo ou lugar onde não haja fogueiras para nos separar.

Espero que a minha história, a história do meu amor queimado na fogueira, algum dia inspire a magia a despertar nos corações das pessoas. Que elas encontrem coragem e força para criar uma revolução, onde os corações jamais serão calados outra vez, nunca mais.

Se te amar é um pecado, eu sei que jamais serei absolvido. Porque amar você foi a magia mais verdadeira que já conheci. Eu te amei com toda a verdade do meu coração, mesmo que o mundo tenha me condenado por isso. As fogueiras não me assustam mais. Elas perderam a habilidade de me oprimir. Eu sou feito de luz e de sombras, de magia, de coragem, de amor que nem mesmo o ódio pode destruir. O autoconhecimento e a aceitação são algumas das magias mais poderosas que se pode ter enraizadas no coração. Eles não podem me queimar mais, assim como não podem apagar o que eu sou. E, mesmo que você tenha escolhido o medo, eu escolho a magia. Escolho o amor.

Hoje, 31 de outubro de 1692, é uma data que marcará gerações como o “Dia das Bruxas”. Não pelo fogo que sobe ao céu, nem pelos gritos dos meus ancestrais que ecoam na noite gelada, mas porque o meu amor, o amor dos meus ancestrais, foi queimado injustamente nas fogueiras de ódio pelos seus antepassados. Eles julgaram o que não eram capazes de compreender, mas o que eles não sabiam é que o amor nunca morre. Ele renasce. Ele vive nas estrelas, nas almas daqueles que ousam amar, mesmo quando o mundo tenta silenciá-los.

Não desperdicem suas vidas procurando por suas almas gêmeas como se fossem pedaços perdidos de si mesmos. Vocês nunca foram incompletos de verdade. Isso é exatamente o que os governos autoritários querem que acreditemos, para que possam nos manter em um estado de dependência constante, calados diante de sua corrupção, enfraquecidos, fáceis de manipular, entregando nossos corações e mentes ao controle deles sem questionamento, nos desligando da realidade em que vivemos.

Quando não temos consciência de nossa própria autonomia, tornamos-nos peças de um jogo que não controlamos, permitindo que decidam por nós: nossos futuros, seja no que sentimos, no que pensamos ou até em quem escolhemos para nos governar. O direito ao voto é uma das maiores ferramentas da democracia, mas de que adianta tê-lo se somos cegos para a importância dessa escolha?

Karl Marx, em seu livro O Capital, usa o termo ‘alienação’ para descrever o trabalhador no capitalismo, onde ele perde o controle sobre o produto do seu trabalho e sobre sua própria humanidade, tornando-se um mero instrumento do sistema. E talvez seja isso que queiram de nós: que aceitemos, sem resistência, vender nossa alma ao capeta.

A manipulação das massas sempre caminhou lado a lado com a censura. O Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos), criado pela Igreja Católica e vigente entre 1559 e 1966, listava obras proibidas para os fiéis. Embora nem todos os livros da lista tenham sido queimados, muitos foram censurados. O conhecimento, quando restrito, se torna uma arma poderosa nas mãos de quem deseja controlar o pensamento e limitar a liberdade de um povo.

É por isso que devemos lembrar as palavras de Bill Gates: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever, inclusive a sua própria história.” 

Se não tomarmos consciência, não apenas seremos escravizados pela ignorância, mas deixaremos que nossa história seja escrita por aqueles que lucram com o nosso silêncio. A verdadeira alma gêmea não é alguém que falta, mas aquilo que desperta o melhor em nós, seja uma paixão por um hobby, um sonho ou até mesmo um reflexo no espelho. Sua alma gêmea está nos momentos em que o seu coração transborda de alegria, na liberdade de ser quem você é, na magia que carrega dentro de si, na coragem para levantar da cama e batalhar pelos seus sonhos de queixo erguido. Você não precisa encontrá-la, porque ela sempre esteve aí, esperando para ser reconhecida.

“E acima de tudo, vistam-se com o amor, pois o amor une perfeitamente todas as coisas.” (Colossenses 3:14)

Aceitem as diferenças, aceitem que cada pessoa carrega uma magia única e permitam-se compartilhá-la com o mundo. Aceitem o amor em todas as suas formas, antes que ele consuma vocês, assim como as chamas do seu preconceito, mascarado de fé, me queimaram. Porque o amor, assim como as estrelas, jamais se apaga. Jamais se esquece. Mesmo quando o mundo tenta silenciá-lo. Talvez, no dia em que vocês encontrarem coragem para libertar a própria magia, as estrelas voltem a brilhar à luz do dia.

Este conto poético se passa no ano de 1692, mas é impossível não sentir dor ao saber que ele ecoa em histórias reais de bruxos e bruxas do século XXI, condenados não por feitiçaria, mas por amar de uma forma que o mundo ainda se recusa a compreender. Nas escolas, onde o bullying esmaga sonhos e sufoca a essência dos jovens; em casa, onde os pais afastam seus filhos por causa de quem eles são, quebrando laços que deveriam ser inquebráveis e eternos; no trabalho, onde a exclusão silencia talentos, apaga potenciais promissores e derrota almas que só desejam ser ouvidas e reconhecidas; nos discursos políticos, que transformam o preconceito em bandeira e pavimentam o caminho para leis que legitimam a discriminação.

Trezentos e poucos anos podem ter se passado desde a caça às bruxas em Salém, mas nós, humanos, continuamos repetindo os mesmos erros daqueles tempos bárbaros. Não importa quantos séculos passaram, ainda insistimos em destruir aquilo que mais nos une: o amor.

Escrevo este texto, caro leitor, como um lembrete de que as bruxas assassinadas em Salém eram inocentes. Não fechem seus olhos diante da verdade! A história nos prova que os erros da humanidade são ciclos viciosos, perpetuados por gerações sem fim. Os eventos históricos que nascem da intolerância deixam cicatrizes profundas, não apenas na carne dos que sofreram, mas nas almas das gerações que herdaram o peso do silêncio, da dor e da injustiça perpetuada. Em um piscar de olhos, o horror do passado pode renascer como uma chama cataclísmica.

“Aqueles que não conhecem sua história estão condenados a repeti-la.” – George Santayana.

Assim como as bruxas de Salém foram consumidas pelas chamas da ingnorância; como Jesus, injustamente foi crucificado; como os povos africanos e indígenas, escravizados e dizimados pela colonização; como os judeus, perseguidos no Holocausto; e como os civis sequestrados, torturados e desaparecidos durante a ditadura militar no Brasil, a injustiça se esconde atrás de máscaras, mas jamais abdica de seu trono sombrio.

A escuridão está sempre buscando uma brecha para nos levar de volta à Idade das Trevas. Porque toda vez que julgamos, condenamos ou rejeitamos alguém por amor, as fogueiras de Salém se reacendem. Não permitam que isso continue. Escolham a magia do amor. Escolham o caminho das estrelas. Permitam que o amor brilhe como as estrelas no céu, eternas, indomáveis e livres. Não podemos mais calar nossa magia! Temos que lutar! Quando a intolerância tentar erguer suas fogueiras novamente, que nossas vozes sejam o vento que apaga as chamas, e não a madeira que as alimenta.

“A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, somente o amor pode fazer isso.” – Martin Luther King.

As bruxas de Salém não foram consumidas pelo fogo por praticarem o mal, mas porque carregavam dons que a ignorância nunca foi capaz de aceitar: o dom do amor, da cura, da diferença. Não deixe que essa mesma intolerância feche os olhos do seu coração para a magia eterna das estrelas.

“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos amei, amai-vos uns aos outros.” (João 13:34)

Não há hipocrisia maior do que distorcer os próprios mandamentos que vocês dizem seguir e honrar, transformando-os em armas para impor condenações injustas contra aqueles que, como eu, só desejam amar. Vocês pregam versos sagrados com os lábios, mas carregam a intolerância no coração, se escondendo atrás de lemas como “Deus, Pátria e Família”, usando essa tríplice como justificativa para a opressão e a negação da liberdade alheia. Se há pecado aqui, não é o meu amor, é a sua fé corrompida pelo fanatismo.

“Não confie em ninguém com uma cruz pendurada no pescoço e ódio enterrado dentro do peito. Aprenda comigo.” – Amanda Lovelace.

Encerro este conto com perguntas que queimam em minha alma como brasas sob o sol escaldante: Por que o amor de vocês é digno, e o meu não? Por que a minha magia é chamada de pecado, enquanto a intolerância de vocês é exaltada como virtude? Por que nos é arrancado o direito de casar e construir uma família, de amar e criar filhos como qualquer outra pessoa? Se Deus é amor, como vocês acham que Ele realmente se sente ao ver seus próprios filhos negando que o amor também pertence aos “condenados”?


Florianópolis, 28/05/2023 – Este conto poético foi produzido para o meu blog, no antigo Twitter, hoje X: Cartas de El (atualmente desativado). Modificado e publicado no site ariellcristovao.com em: 27/01/2025.

Aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras.”

Cada palavra, ideia e pesquisa aqui compartilhada são frutos de minha autoria e dedicação. O plágio é crime, conforme previsto no artigo 5º, inciso XXVII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei 9.610/98, e pode resultar em sanções legais. Respeitar o trabalho alheio é essencial para a construção de um ambiente de criatividade e respeito mútuo.

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3 respostas para “Conto/Manifesto histórico-ficcional: O amor não é para os condenados!”.

  1. Avatar de Josete
    Josete

    Lindo texto! Continue sua caminhada pela magia das palavras.

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  2. Avatar de Domenique Bitencourt Gamboa
    Domenique Bitencourt Gamboa

    Lindo, cativante e instigante! Ariéll, você é o MAGO DAS PALAVRAS! ♥️💙❤️

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  3. Avatar de Sthefany
    Sthefany

    Orgulho a cada trabalho seu que eu leio Ari você arrasa sempre!

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