Entrevista ping-pong: A importância de estudar história diante dos desafios apresentados pela sociedade contemporânea

“A VISÃO PREDOMINANTE É ESSA: UMA HISTÓRIA CRÍTICA, QUE ANALISA E NÃO SIMPLESMENTE MEMORIZA FATOS DO PASSADO”.

Conhecer a cultura do seu passado e buscar compreendê-lo de forma crítica, em vez de simplesmente memorizá-lo ‘de olhos vendados’ (figurativamente falando), impede que você, cidadão, seja facilmente manipulado por ideologias políticas de outras pessoas. Essa afirmação é do Doutor em História Cultural, Altamiro Antônio Kretzer.

O repórter Ariéll Cristóvão entrevista o professor Altamiro Kretzer. Foto: Ana Carolina Santana.

A entrevista ocorreu no local de trabalho do entrevistado, em uma quinta-feira de inverno, às oito horas da noite. O tema abordado pelo repórter Ariéll Cristóvão foi a importância de estudar história diante dos desafios apresentados pela sociedade contemporânea. O entrevistado se graduou inicialmente em filosofia pela Fundação Educacional de Brusque, em 1992, mas seu objetivo de vida não era ser professor. O curso de filosofia, na verdade, é uma das etapas iniciais para a formação de sacerdote. Durante esse período, ele começou a lecionar por uma necessidade financeira e foi então que descobriu a sua verdadeira paixão: transmitir o seu conhecimento para as pessoas. Em 2001, foi um dos fundadores e o primeiro Presidente do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) em Antônio Carlos (SC), sendo eleito vereador em 2008. Em 2003, foi co-fundador e Presidente da Associação Cultural e Artística de Antônio Carlos (POESIS) e da Rádio Comunitária (98.3 FM), que leva o mesmo nome. No ano de 2005, finalizou o mestrado em História Cultural e, em 2013, o doutorado na mesma área, ambos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Entre 2013 e 2016, Altamiro assumiu a Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Naquela época, foram desenvolvidos projetos, como: o resgate da língua Hunsrückisch (alemão local) e a publicação de livros produzidos por alunos da rede municipal de ensino. Atualmente, é professor efetivo da Escola de Educação Básica Altamiro Guimarães, ministrando as disciplinas de história e filosofia.

Ariéll Cristóvão de Souza (A. C. d. S.): Como você definiria a importância do estudo da história na sociedade contemporânea?

Altamiro Antônio Kretzer (A. A. K.): A história é importante, não só no momento atual, mas sempre foi. A questão é que, em cada momento histórico, esses espaços de conhecimento vão ter maior ou menor importância, conforme uma série de fatores. […] Afinal de contas, para que estudar história? Aí vem aquele senso comum. […] Quem vive do passado é museu. […] A história não é passado. Sim, nós analisamos o passado, mas essa investigação é sempre parte do presente, das preocupações que eu tenho hoje. […] Hoje a gente discute o crescimento da extrema-direita no campo político, não só no Brasil, mas no mundo. Vimos agora a questão das eleições na França. Então, se a gente vê, nesse momento, o renascimento da extrema-direita, o que isso nos força? Eu vou tentar entender o que esse fenômeno que é presente tem relação com o passado, onde esse movimento já existiu, já esteve no poder, fez o que fez. A história vai me permitir entender melhor o que a gente está vivendo no presente. Mas eu preciso do passado, porque o presente é feito de passados. […] E como você não tem essa capacidade de relacionar, te empobrece no entendimento do mundo. E, ao empobrecer o entendimento do mundo, isso te empobrece enquanto cidadão ou enquanto pessoa, porque você não consegue entender o que está acontecendo à sua volta, você é mais facilmente manipulado. Então, você consegue ser mais independente, quanto mais conhecimento e informação você tem para entender a realidade. E a história é um instrumento, na minha visão, essencial para isso. […] Embora alguns critiquem essa visão meio romantizada da história, ela tem um quê de verdade. No passado, diziam que a história é a mestra da vida, que você olha para o passado, você aprende os erros e evita os erros no presente. Não é tão simples, porque a gente tem a questão dos tempos históricos diferentes, a gente corre o risco dos anacronismos, de você querer pegar algo da história do passado e simplesmente transportar para o presente. […] Ela não é simplesmente eu copiar soluções do passado, mas ela me dá pistas, me dá sugestões e possibilidades de entender melhor e planejar melhor o próprio presente e o futuro.

A. C.: Quais são as principais mudanças no ensino da história ao longo dos últimos anos?

A. K.: Eu comecei a dar aula aqui em meados de 95. Muitos professores tinham aquela tradição de ensinar a história como uma espécie de conhecimento enciclopédico. […] O aluno memoriza acontecimentos do passado, datas, personagens e acontecimentos. […] Conhecer a história te dá uma cultura do passado. E eu sempre tive essa visão diferente, porque a história é muito mais do que isso. É legal você ter esse conhecimento histórico, mas só o conhecimento por si só, como uma enciclopédia, não faz sentido se esse conhecimento não te contribui no entendimento do presente. E aí eu comecei a tirar essa prática de memorizar questões dos alunos. […] A visão predominante é essa: uma história crítica, que analisa e não que simplesmente memoriza fatos do passado. E acho que é uma mudança importantíssima na forma de ensinar história que tem ocorrido nas últimas décadas.

A. C.: Quais são os principais mitos e equívocos sobre o estudo da história que você gostaria de desmistificar?

A. K.: O primeiro é que história não é ciência. […] Entende-se que história é meio que opinião. […] Porque, afinal de contas, a história está contando uma versão do passado. […] Embora eu não consiga reproduzir exatamente o passado, mas quando eu vou estudá-lo como historiador, eu vou fazer ciência. […] Eu vou me embasar em determinados referenciais teóricos para fazer essa análise. […] Não é simplesmente eu escrever um texto sobre um momento histórico do passado e jogar ali minhas opiniões pessoais. Isso não é história. Pode ser qualquer outra coisa, menos história. […] História é ciência, sim. […] Ela deve ser revisada, como qualquer ciência.

A. C.: Como as novas tecnologias têm influenciado a forma como a história é ensinada e pesquisada?

A. K.: Hoje, embora isso traga uma certa nostalgia, aquele pesquisador(a) da história que vai lá mexer nos arquivos, nos papeis, o que é legal nas fotografias, só que hoje você tem muito desses acervos digitalizados e isso facilita muito uma pesquisa. Você vai e entra no site da Biblioteca Nacional, por exemplo, que tem arquivos de jornais e revistas, de diferentes épocas e regiões do Brasil e você digita simplesmente lá uma palavra que você está buscando. […] Então, assim, você ganha um tempo enorme ao invés de estar folheando.

A. C.: Como a história pode contribuir para o reconhecimento e valorização das contribuições de mulheres, da população LGBTQIAPN+ e pessoas de diversas origens étnicas na construção da sociedade contemporânea?

A. K.: Durante muito tempo a história, era contada a partir do olhar dos vencedores, não se dava voz aos derrotados, aos vencidos, aos oprimidos. A história mais recente, alguns vão chamar de micro-história, enfim, vai focar nisso, vai pesquisar o João da Esquina, vai pesquisar a vida da Dona Maria e vai tentar entender naquela vida, uma determinada realidade que não estará nos livros de história. […] Então, quando você faz isso também com as mulheres, com negros, com LGBTQIAPN+, com todos os grupos que muitas vezes são marginalizados em diferentes momentos da história, e você dá voz a esses indivíduos, você mostra que eles também fazem parte da história, embora, às vezes, sejam silenciados, apagados por uma determinada maneira de ver e de contar a história. […] É o que eu digo para os alunos. Eu, provavelmente, não estarei num livro de história oficial, talvez vocês não estarão, alguns talvez, quem sabe. Mas isso não significa que vocês não façam parte da construção histórica da sociedade em que vocês vivem. […] Quando você olha para o passado e vai entender, por exemplo, como se trabalhou num passado não muito distante, na história do Brasil, a tentativa de apagamento da contribuição negra. […] Eu pergunto, Machado de Assis, era negro ou branco? Para a maioria dos estudantes, um homem branco. Mas não era. Nos Estados Unidos, teve o primeiro presidente negro, Barack Obama. E no Brasil, já teve algum presidente negro? “Não.” Mas a gente teve! Então, a história do Brasil é, em grande parte, uma história que também apagou muitos personagens. E quem pode trazer isso à tona de novo? A história e os historiadores.


Florianópolis, 01/08/2024 – Trabalho final (entrevista ping-pong), produzido para a disciplina: Linguagem e Texto Jornalístico I, ministrada pela Profª Janaíne Kronbauer dos Santos (1ª Fase, Jornalismo-UFSC).

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Cada palavra e ideia aqui compartilhada são frutos de minha autoria e dedicação. O plágio é crime, conforme previsto no artigo 5º, inciso XXVII, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei 9.610/98, e pode resultar em sanções legais. Respeitar o trabalho alheio é essencial para a construção de um ambiente de aprendizagem, criatividade e respeito mútuo.

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